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Rubens



Quando Rubens olhou para o espelho naquela manhã, exatamente como havia feito todas as manhãs de sua vida, reparou surpreso num fio de cabelo grisalho. Fios de cabelo perdem a cor da noite pro dia? Talvez ele não tivesse tido tempo antes para reparar naquele fio de cabelo. Talvez ele tivesse, naquela manhã, saltado alguns minutos mais cedo da cama.

Aqueles minutos e aquele susto fizeram com que Rubens reparasse em outras novidades de seu cenário: uma mulher roncando em sua cama, filhos crescidos num quarto ao lado. Filhos? Não se lembrava de ter tido tempo para tê-los ou mesmo fazê-los. Mesmo assim, tratou de seguir com seus afazeres, convencendo-se de que ter ganhado uns minutos a mais pela manhã não era justificativa pra perder tempo em sua rotina.

Tomou seu banho e seu café da manhã sozinho. Ao sair de casa e dar-se conta que o mundo lá fora estava em preto e branco, não teve dúvida: sonhava. Bastava, portanto, esperar até que despertasse espontaneamente como sempre, ou seja, um minuto antes que o alarme do rádio-relógio paraguaio que ficava no criado-mudo ao lado de sua cama disparasse.

Ficou ali parado, olhando aquele cenário que parecia saído de filme velho. No entanto, não despertou tão logo como imaginou que aconteceria. Tentou debater-se, sem se importar se passava vergonha frente aos poucos transeuntes na rua: afinal, estava de fato ainda na sua cama. Constrangia-se apenas com a possibilidade de não ouvir o alarme e perder a hora no seu quarto.

Sim, ouviu o som do alarme, mas vindo de dentro da sua casa de sonho. Correu ao quarto acreditando que, ao desligar o rádio-relógio, acordaria no mundo real. O que não aconteceu, nem mesmo quando puxou o fio que ligava o aparelho à tomada. Não teve dúvida: esse sonho é dos bons. Devo estar longe de acordar, deve ser a metade da noite ainda. E, já que não acordo, vou me divertir nesse mundo de filme velho.

Primeiramente, tratou de revirar tudo dentro de sua casa. Jogou as coisas no chão, de maneira bem ridícula, como uma criancinha revoltada. Acordou de vez a mulher, que já tinha deixado de roncar desde que o despertador tocara, e os filhos crescidos. Todos olharam atônitos. Alguém gritou "Porra, pára!", mas Rubens não reconheceu a voz. Não se importou absolutamente com o pedido. Parou apenas porque sabia que os sonhos se apagam da memória, e que aquilo era besteira - queria tentar qualquer coisa de inesquecível.

Então correu de volta para a rua. Hesitou por não saber para que lado ir. E não sabia qual o lado certo porque não sabia bem o que queria fazer. Estava num sonho, totalmente livre, e não conseguia decidir o que mais queria fazer num mundo que não o impediria de fazer coisa alguma. Talvez muito sexo, mas como encontrar as atrizes? Ficou triste por um segundo e decidiu voar para olhar o mundo lá de cima, de onde tomaria uma decisão. Mas, aparentemente, este não era um sonho de vôo, pois deu uns pulinhos e nada. Não voou nem quando imaginou que o ar era de água e começou a dar braçadas e pernadas como um nadador. Que sonho chato. Pôs-se, afinal, em disparada, motivado principalmente pelo fato de sua família de pesadelo ter chegado perto dele, com ar preocupado.

Correu e correu, sem conseguir tomar decisão alguma. Ficou com medo de acordar sem ter feito nada legal. Sentiu-se mal por isso. Não tinha nenhum desejo reprimido para realizar em seu sonho (era o que tinha aprendido nas aulas de psicologia da faculdade) - não porque todos os seus desejos já tivessem se realizado, mas porque não desejava nada. A angústia o tomou. Sentindo cansaço, acabou por desejar acordar. Mas como fazê-lo? Uma medida drástica: jogou-se na frente de um caminhão que passava. Estranhou muito que pudesse sentir dor no sonho, e a última coisa que pensou foi que todo aquele sangue não devia ser vermelho.

No enterro, somente o motorista do caminhão chorou. Na missa de sétimo dia, somente o motorista do caminhão apareceu.


Por Thiago F. * 20:36 * terça-feira, 3 de junho de 2008