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A hora de ter sido

(francamente inspirado nas cenas iniciais de "Horas de Verão", de Olivier Assayas)



Para ler ouvindo Transcending, dos Red Hot Chili Peppers.





Era o dia mais feliz da vida de Noêmia, apesar de ser pouco provável naquela idade. O tempo voara? Não. Tinha sido uma longa e bela vida. E, naquele momento, com a família toda cantando parabéns a ela, no jardim de sua casa, não poderia se sentir melhor. Bruno, o neto mais novo, filho de seu filho Pedro, soprou as velas do bolo. Setenta e cinco. Pedro, Paulo e Patrícia sopraram a velhinha. Todo ano faziam isso. A filha era sua caçula. Pediu a todos que se juntassem para bater uma foto com seu celular.

- Tia, deixa eu ver? - perguntaram os gêmeos em uníssono. Eram filhos de Paulo.
- Que pena papai não estar aqui.
- Ah, filha.
- Ele adorava bater fotos. Eu poderia sair com vocês.
- É disso que você sente falta? - interveio Paulo.
- Não, eu só quis dizer...
- Meninos, chega. Seu pai não está mais aqui.
- Não sente falta dele, mamãe?
- Sim, mas ele se foi. Deixemos que fique em paz.

Pedro volta de dentro da casa com seu presente. Noêmia abre o embrulho.

- Um cobertor?
- Foi a Carla quem escolheu.
- Querido, você também achou bonito. Noêmia, é para o inverno. Para assistir TV bem aconchegada.
- Presente para velhos, não?
- Não é isso, mãe...
- Estou brincando, Pedro. Eu gostei. É muito bonito mesmo. Carla tem bom gosto.
- Afinal, casou-se comigo...
- Palhaço.

Em seguida, era a vez de Paulo. Lígia, sua esposa, apenas observa. Fumava, um pouco afastada.

- Ah, a tecnologia.
- Sim, mãe. Pensamos que seria bom um telefone sem fio, que a senhora pudesse carregar pela casa. Para não ter que correr quando tocar.
- Vocês vão ter que me mostrar como usar!
- Aqui, vó, olha, a senhora aperta aqui...
- Primeiro liga aqui, depois espera carregar...
- Gustavo, Guilherme, deixem que depois mostramos para a vovó. Deixem a tia Patrícia dar o presente dela.
- Obrigada, Paulo.
- Ei, quem disse que eu tenho um presente? E seu eu não tiver trazido nada? Estou obrigada agora?
- Patrícia, vai dizer que não trouxe nada para mamãe? No aniversário dela de setenta e cinco anos?
- Deixe, Paulo, não é tão importante assim.
- É sim, mamãe, como ela pode...
- Por acaso, eu trouxe. Mas não pense que me sinto no dever.
- Sim, todos vocês me amam.

Todos riram.

- Olha, mãe, está embrulhado mas a senhora já sabe o que é.
- Obrigada, filha.

Mas havia uma surpresa ao abrir o presente. Surpresa até para Patrícia.
- Querida, acho que você trouxe a caixa errada. O que é isso?
- Que estranho. O que será?
- Será que você pegou errado na loja?
- Não, veio pela Amazon. Com meu nome, no meu endereço.
- E você não abriu para conferir? - Não, eu não...
- Puta merda, Patrícia, como você é idiota. Toda moderninha e...
- Cala a sua boca. Quem errou foram eles. Eu só não quis estragar o embrulho.
- Você tem a nota ainda? Pelo menos isso. - Sim.
- O que é isso, tia? Ap.. Apito...
- Não sei, Carol, veio errado.
- Não dá para aproveitar?

Ninguém sabia quando Pedro brincava ou falava sério. Aproveitar um presente rrado? Ele pegou a caixa da mão da filha e leu o nome do produto em voz alta: Happytron. Depois riu.

- Que coisa mais gay.
- Mas o que é?
- Deixe-me ver. Hmm...
A caixa, sucinta, não deixava de ser misteriosa. Além do nome do produto e de uma foto de uma pessoa sorrindo, tinha apenas algumas instruções.

1. Adapte o Happytron à cabeça.
2. Ligue o cabo de áudio e vídeo em sua televisão.
3. Pronto. O momento mais feliz da sua vida será reproduzido.
- É mais uma de suas piadas?
- Não!
- Passe aqui.

Todos olharam e confirmaram.

- Então realmente poderemos aproveitar.
- Nem pensar, eu vou trocar! Se abrirmos, perderei o direito.
- Deixe disso, Patrícia. Depois você dá outro presente pra mamãe. Com este, nós ficamos.
- Meus filhos, deixem essa coisa para lá. São todos bem crescidos para ficarem discutindo por causa de um brinquedo, não é?

Era verdade. Não brigariam.

- Então votemos.

Apenas Noêmia e Patrícia foram contra a abertura da caixa. Pedro e Carla votaram a favor, assim como Paulo. Lígia não votou porque tinha ido à cozinha atender a uma ligação no celular. Também Denis, o namorado belga de Patrícia, se absteve, porque não entendeu nada do debate. As crianças, é claro, foram todas a favor. A democracia em família decidiu pela abertura.

Passaram à sala da TV. Noêmia não entendeu direito, e achava aquilo tudo uma bobagem. Por acaso a festa não estava boa antes? Talvez tenha se sentido um pouco fora do centro das atenções naquele momento. Ou talvez estivesse simolesmente preocupada com o eletrônico desconhecido.

- Não será perigoso?

Ninguém deu atenção. Não havia outras informações além das lidas por Pedro. Paulo quis ser o primeiro, fez questão. Pediu a Lígia que se sentasse ao seu lado. Ela acendeu outro cigarro e se acomodou.

Paulo abriu a caixa e seguiu as instruções. O aparelho funcionou, para a surpresa de todos, que assistiam enquanto comiam o bolo. Reviram o casamento de Paulo e Lígia. Era exatamente como ele se lembrava. A cena aparecia na televisão como se tivesse sido filmada através de seus olhos.

- Cristo, como eu estava gorda.
- Olhem, é papai!
- sim, estou vendo!
- Você tinha que ter chorado? Agora ficou tudo embaçado.

A imagem acabou num fade out. Aquele tinha sido o momento mais feliz da vida de Paulo. Ele estava extasiado por tê-lo revivido.

- Lígia, querida! Agora você!
- Acho melhor não...
- Por que não? Como assim?
- Ah. Não sei. Você quer que todos revejam a mesma cena? Vamos dar chance aos outros.
- É isso aí, Lígia, é a vez da nossa mãe. Não acham? Afinal, o presente era para ela.
- Isso não é para mim. Patrícia já explicou, foi engano.
- Então vou eu mesmo, já que sou o irmão mais velho. Eu já devia ter sido o primeiro.
- Pai! Deixa eu! Deixa!
- Não! Eu, eu!
- Joquempô, os dois. Melhor de três.

Ganhou Bruno.

- Dói, tio?

Não doía. Então a imagem começou. Pelos olhos de Bruninho, viam-se os gêmeos. Gustavo segurava um sapo na mão. Estendeu-o ao primo, que o pegou. Fez carinho, aproximou-o bem perto do rosto.

- Que bonitinho, Bruninho! Um sapinho!
- Eu acho é nojento.

A imagem prosseguiu e Bruno correu com o sapo na mão, atrás dos primos que já tinham corrido também. A família se deliciava com as imagens da infância. Na TV, as crianças chegaram até perto de duas árvores e brincaram de dois-ou-um. Guilherme perdeu e se afastou até ficar entre árvores. Bruno pôs o sapo no chão e o chutou. Guilherme não conseguiu defender. Gol.

- Ai, que horror!
- Credo, Bruno!
- Bruno! Quem te ensinou a fazer isso? Hein!?

O garoto ria sem parar. Os gêmeos, mais velhos, com doze anos, ficaram bem constrangidos. Sabiam que ficariam de castigo. A cena continuou, com Gustavo chutando o sapo dessa vez. Os adultos então desligaram o aparelho.

- Ah, deixa, pai! Deixa!

Pedro apontou o dedo para Paulo.

- É isso que seus filhos ensinam o meu a fazer?
- Nem vem. Foi o Bruninho quem chutou o sapo. Você que deixou de ensinar a ele...
- Eu deixei de ensinar a ele o cacete. Seus filhos são mais velhos, deveriam dar o exemplo. Mas parece que você não dá exemplo nenhum a eles.

Etcetera. Durante a discussão, Patrícia segurou o Happytron e olhou para ele, como se cogitasse usá- lo.

- Filha, deixe de lado. Não valerá a pena.
- Será que não, mãe?
- Não, filha. Não os trará de volta.
- Por alguns momentos, só, talvez... o momento mais feliz da minha vida...
- Sim, mas só por alguns momentos. E depois?
- ...
- Nem pense em levar de volta para trocar. Deixe aqui que eu me desfarei dele.
- Paulo poderá trocá-lo.
- Não me parece que seja uma boa ideia que Paulo leve para casa. Será que você não percebeu?
- E Pedro?
- Não será muito melhor. Deixe aqui. Amanhã eu peço a Nina que jogue fora.
- Será uma boa ideia?
- Filha, não há alternativa. Não insista. E peça a todos que vão. Essa confusão toda me deixou muito cansada.

A festa havia acabado. O telefone sem fio não foi instalado. Noêmia se viu sozinha. Terminou de beber uma garrafa de vinho tinto que ficara aberta. No entanto, não pôde dormir. Tinha ficado agitada. Algumas horas depois, resolveu experimentar o Happytron. Não havia nada a perder. Foi fácil fazer o aparelho funcionar. Aconchegou-se em seu cobertor novo.E, como havia previsto, o melhor dia da sua vida tinha sido justamente aquele, com a família reunida antes da confusão. Só estranhou que, em vez de assistir apenas ao melhor momento, toda sua vida tenha passado na TV. Foi seu último pensamento.


Por Thiago F. * 10:14 * domingo, 9 de agosto de 2009