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i-Hole

Para ler ouvindo Fixing a hole, dos Beatles


- Manhê, meu i-Hole não está funcionando de novo!
- Ué, leva na assistência técnica. Não está na garantia do último conserto ainda?
- Tá, mas eu não quero ir até lá. É muito longe! E as pessoas lá são muito feias.
- Deixa de ser chorona, Gabi. Não leva nem dez minutos andando.
- Mas você poderia levar lá com seu i-Trek - leva, por favor?
- Não, Gabi. Deixa a mamãe trabalhar e vai lá resolver isso você. Vou desligar. Beijo.

A mãe de Gabriela desaparece da tela.

Gabriela não via a hora de fazer dezoito anos e poder ter o seu i-Trek. Por causa de um monte de leis velhas, menores de idade, como ela, não podiam ter seu próprio teletransportador. Não porque não tivessem consciência ou responsabilidade para usá-los, mas porque era de interesse da saúde pública que os jovens caminhassem. O governo não queria um monte de obesos por aí.

Os menores poderiam, é claro, usar teletransportadores acompanhados por adultos. A única pessoa maior de idade na casa de Gabriela era a sua mãe, que estava o tempo todo fora, trabalhando. Só ficava em casa à noite, mas chegava tarde demais, quando Gabriela já estava dormindo. Mãe e filha só se encontravam pela manhã, durante o café e o trajeto de 1 microssegundo à escola. De resto, conversavam através da tela.

Gabriela tinha dezesseis anos e estava, naturalmente, no impulsivo (antigamente conhecido como científico, colegial, segundo grau ou ensino médio). Não gostava de ir à escola e também detestava as leis velhas que exigiam, apesar de todo avanço tecnológico, sua presença nas aulas. Para que serviriam as telas então? Presença é tão século XX, queixava-se Gabriela. Se dependesse dela, em último caso enfiaria a cabeça num i-Hole grande, dos primeiros modelos, e assistiria às aulas com sua bunda sentada em casa. Mas outras leis, não tão velhas, proibiram o uso de i-Holes para cabeça devido a alguns acidentes fatais com baterias fracas.

Evidentemente, um i-Hole era um pequeno teletransportador portátil de objetos e/ou partes do corpo projetado pela Apple. Por sua vez, ele é resultado da pesquisa e desenvolvimento do i-Blackhole. Este produto original tem uma história interessante.

Quando os cientistas, pela primeira vez, conseguiram criar buracos negros em laboratório e inventaram o teletransporte, o robozinho Spirit 2 - que, posteriormente, por motivos que logo se tornarão claros, veio a ser apelidado por alguns de Pork Spirit - instalou em Marte o primeiro ponto de saída dos objetos teletransportados. Só que, logo em seguida, houve uma explosão de prótons na fábrica da Apple na Califórnia, o que levou a Falha de San Andreas a rachar-se totalmente e destacar-se do continente norte-americano. Com isso, o então Estado americano, agora desunido, proclamou sua a independência política e tornou-se um país soberano e altamente explorador na exportação de filmes cinematográficos. Por causa disso (e não por causa das mortes na fábrica, como se costuma encontrar em enciclopédias), proibiu-se totalmente, através de um tratado internacional, a produção de pontos de saída do i-Blackhole, de forma que o único existente estava em Marte.

A Apple, aproveitando-se de uma brecha na lei, que proibia a produção de pontos de saída mas não de pontos de entrada, produziu então as primeiras unidades de i-Blackholes. A quem interessaria mandar coisas para Marte, uma vez que os astronautas já tinham comprovado que o planeta não serviria para nada? A todos os humanos, responderia a Apple com o slogan de lançamento do i-Blackhole.

O produto serviria para lançar os dejetos humanos em Marte. O planeta vermelho, declarado patrimônio da humanidade, transformou-se o lixão da Terra. Bastava instalar o i-Blackhole nas roupas íntimas que você poderia sair por aí cagando e andando, de acordo com um slogan não aprovado pela companhia. Logo vieram as versões saco de vômito, Kleenex, cinzeiro. O planeta nunca ficou tão limpo e as casas tão espaçosas, sem necessidade de sanitários.

O setor jurídico da Apple descobriu ainda outra brecha na lei, que permitia que a companhia desenvolvesse pontos de saída de teletransportadores que não fossem o i-Blackhole, usando uma tecnologia diferente da colisão de prótons. A partir daí, desenvolveram-se os teletransportadores pessoais conhecidos como i-Treks e os menores, i-Holes, que permitiam a passagem de partes do corpo, mas nunca o corpo inteiro. Era um i-Hole de versão recente, menorzinho, pelo qual não passava uma cabeça humana, que Gabriela tinha ganhado de aniversário e que já pifava pela segunda vez.

Sendo a mente humana engenhosa como é, as pessoas não levaram mais que doze minutos desde o lançamento do i-Hole para fazer sacanagens a distância e abandonar seu uso originalmente previsto, que era de assinar contratos semi-presencialmente. A partir de então, a maior parte do sexo no mundo era feita por intermédio do pequeno aparato.

Você podia ver, por exemplo, um sujeito gozando no escritório, aparentemente sozinho. Na verdade, ele tinha deixado um i-Hole na cueca e alguém do outro lado do planeta estava trepando com ele. Isso era bem comum desde os primeiros tempos de i-Hole - os amantes olhavam-se apenas pela tela, caso quisessem. Com o i-Hole Shuffle, era possível fazer sexo com uma pessoa aleatoriamente disponível no mundo, mas isso logo se tornou proibido porque algumas pessoas usavam o aparato sobreposto ao i-Blackhole, o que levava seus parceiros a perderem seus membros em Marte.

Por esse uso sexual banalizado do i-Hole, Gabriela, que era muito tímida, tinha muita vergonha de levar o i-Hole pela segunda vez em menos de três meses à assistência técnica. As pessoas lá achariam que ela usava o aparelho para trepar sem parar, o que não era verdade. Até então, Gabriela não tinha tido nenhuma relação sexual, e atribuía a desgraça ao fato de não ser muito atraente. De fato, como sua mãe, diferentemente das mães das suas amigas, não lhe dava carona de i-Trek a lugar nenhum, Gabriela andava muito e, por isso, era magra. Não tinha nenhum pneuzinho e os garotos não olhavam para ela. Ser magra é tão século XX, queixava-se Gabriela. No fundo, era por isso que Gabriela esforçava-se para ficar tanto em casa - ela queria ser rolicinha como as outras.

Enfim, contra a sua vontade, ela foi andando por dez minutos naquele mundo limpo de dejetos chamado rua. Por ali, andavam os magros. Que visão do inferno. Se levasse mais um minuto, ela não teria agüentado, pensou ao chegar na técnica. Entretanto, contra todas as suas expectativas, nem todas as pessoas na assistência técnica naquele dia eram feias como ela havia previsto à sua mãe.

Gabriela conheceu lá um rapaz bem fortinho, por assim dizer, que tinha levado seu i-Trek para o conserto. Ele era muito simpático, e ela se interessou muito por ele. Sem seu teletransportador, ele teria que voltar a pé e ofereceu-se para acompanhá-la na volta. Gabriela ficou tão extasiada que até se esqueceu de pedir o conserto de seu i-Hole.

No caminho, que já durava mais de dez minutos mas que poderia durar para sempre sem nenhum problema, começou a chover uma substância estranha, fedida, meio pastosa e marrom. As pessoas mais novas, como Gabriela, usavam o i-Blackhole desde que nasceram, e não sabiam identificar que o que estava chovendo, sem mais nem menos, era bosta. Ela acreditou ser o amor nascendo entre os dois e ficou feliz, toda esmerdalhada. Mas o que estaria de fato acontecendo?

Não perca no próximo episódio: Marte contra-ataca.



Por Thiago F. * 11:24 * domingo, 28 de setembro de 2008