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A velha turma


Para ler ouvindo Instruments of action, de Forget Cassettes.




Por motivos que nunca poderemos compreender, a casa em que Marco morava passou a ser de sua prima com o fim do processo de herança que teve início com a morte de seu ex-padastro. Quem também se viu desabrigado naquele momento foi seu meio-irmão Toninho, que vivia escondido na casa desde que fugira da cadeia. Para este, a solução foi voltar para o crime, já que, segundo seu próprio entendimento, não faria a menor diferença roubar de novo, uma vez que já era um bandido procurado. Marco sentiu que não tinha nada mais a perder e uniu-se a Toninho em sua empreitada, voltando a uma vida que havia abandonado anos antes.

Vida que havíamos começado por esporte. Roubar calotas e faróis de milha inicialmente era uma grande aventura. E ainda valia uns trocados quando vendidos, o bastante para comprar gibis de super-herois e comer no McDonald's aos domingos. Conforme crescemos, resolvemos partir para o lado de dentro dos automóveis – o mercado de sons de carro, inclusive, pagava mais. E não era só com gibis e sanduíches que queríamos gastar o dinheiro. Tornou-se uma necessidade. Até que algum de nós quis entrar num carro em que havia uma pessoa, coisa que nunca tínhamos feito. A partir daí, as coisas se complicaram. Violência era algo que nunca havia acontecido – somente sonhávamos, imaginávamos fazer de modo ético, sem dor para a vítima, um tiro e pronto. Leandro foi o primeiro a arregar. Acabou indo trabalhar justamente no McDonald's. O primeiro de nós a trabalhar lá. O primeiro de nós também a engravidar a namorada. Era um pioneiro, dizíamos. Tanto que foi o primeiro de nós a largar a turma.

Eu estava no mesmo pé. Era preciso largar. Haveria uma última vez, e só pela novidade: invadir uma casa. Uma casa vazia, insisti. Encontramos uma sem dificuldade. Marco e Toninho começaram a recolher o que podiam, mas os donos apareceram. Minha função era de alertá-los de qualquer problema. Cagão que sou, fugi. Traiçoeira e desesperadamente, sem avisá-los de coisa alguma. Marco conseguiu escapar, mas não Toninho, que acabou sendo preso. Da prisão, felizmente, ele pôde fugir. E foi esconder-se na casa de seu meio-irmão, até que perderam a casa. A decisão de voltar ao crime foi imediata.

Então me chamaram. Depois da invasão frustrada à casa, eu tinha levado uma vida limpa. Trabalhei por alguns meses com Leandro, depois com um tio na loja de fogos de artifícios. Estava procurando emprego quando me trouxeram um plano. Dinheiro fácil, disseram. Sim, o dinheiro existia – mas ser fácil era outra questão.

Seu Vittorio queria morrer. Simplesmente perdera sua razão de viver. Não havia nada, nada, que o prendesse a este mundo. Assim disse Toninho. Como ele sabia de algo assim? Na prisão, antes de fugir, Toninho teve contato com Giovane, filho de seu Vittorio. Lá, Giovane admitiu ter de fato cometido o assassinato pelo qual fora preso. No julgamento, havia sustentado até o fim sua inocência e a injustiça da pena. Mas a culpa o torturava e ele sentia vontade, ao mesmo tempo que medo, de confessar ao pai que matara a mãe. Toninho, ao fugir, entendeu que seria justo contar a seu Vittorio a verdade sobre o filho. Sabedor então do crime, seu Vittorio só pôde desejar a própria morte. Sendo, todavia, cristão, não poderia cometer suicídio, e suplicou a Toninho que tirasse sua vida – afinal, ele já era criminoso.

Sim, agora poderíamos matar alguém, de forma honesta, e arrecadar um dinheiro com isso. Um tiro, sem dor, como sempre sonhamos. Um tiro cada um, melhor dizendo. Dividir a morte por três tornaria tudo mais fácil, disseram.

E por que eu?, foi minha pergunta aos caras. A resposta é que eles queriam que eu me redimisse da minha mancada, que culminou na prisão de Toninho. Além disso, eles tinham simpatia por mim, queriam retomar a velha turma, as velhas aventuras. E só nós três tínhamos sobrado. Quando eu aceitei participar, já estava tudo arranjado: faríamos parecer um assalto à casa de seu Vittorio, ele teria resistido, os ladrões teriam atirado nele. As armas já tinham sido providenciadas por eles, três três-oitões. A vantagem é que poderíamos realmente levar coisas da casa do futuro falecido, para dar realismo à cena. Sem contar a grana que seu Vittorio nos pagaria pelo serviço bem feito.

Íamos a pé, tomando uma cerveja e batendo papo. Tudo estava tranquilo. Até que, por acaso, passa uma moça de bicicleta. Bem gostosa. Tive que mexer com ela. Como saberia que, ao olhar para trás para me responder, ela acabaria por cair e esfolar o nariz no chão? Começou a sangrar e gritar sem parar. Quis ajudá-la, mas não me deixaram. Não era uma boa ideia me sujar com o sangue. Cheguei mais perto, só por chegar, mas o rosto com a sujeira da rua, todo vermelho, todo escuro, aquilo me deu um nojo, uma náusea, e, com a pressão baixa, desmaiei. Os caras trataram de me pôr em pé e insistiram em não parar por ali. Tínhamos algo a fazer. Tornaríamo-nos homens. Lembro da expressão de desamparo da moça, toda estropiada e sem entender por que não a ajudávamos, como se isso aumentasse sua dor, suas lágrimas.

Eu já estava totalmente transtornado quando, enfim, chegamos. Seria preciso fazer o que tínhamos a fazer de maneira rápida. Não poderia suportar sequer um grito de seu Vittorio. Nem olharia no seu rosto. Faria por trás. Já estava decidido. Ele abriu a porta, e tudo que pude ver foram seus chinelos de velho, os dedos retorcidos, brancos. Não ousei encará-lo.

Tudo parecia piorar. Lá dentro, nova surpresa. Arlene, sua irmã, acompanhada do filho, Elton. Eles estão interados, disse seu Vittorio. Estavam lá porque Arlene, advogada, preparava um testamento no qual seria beneficiária. Giovane, o filho assassino, não ganharia nada, segundo nos explicou. Marco se irritou com a história, pois odiava heranças. Eu avisei aos caras que daria merda, mas eles mandaram eu me calar. Testemunhas não estavam previstas, insisti, ainda que consentissem com o contrato que tínhamos com seu Vittorio. Elas simplesmente não estavam previstas e alguma merda ia dar. Marco enxotou mãe e filho da casa. Ficamos nós e seu Vittorio, que nos entregou a grana que encomendamos. Não podia nos dar tudo, pois algo teria que ficar para Arlene e Elton.

- Tudo bem, respondeu Toninho. – Viemos para saber como é tirar uma vida.

Marco começou a recolher bens da casa para que o assalto ficasse configurado. Foi enfiando tudo que era tralha nas mochilas de leváramos, jogando coisas no chão para representar o tumulto. Parecia bem à vontade com o que fazia. Eu, como planejado, fiquei pelas costas de seu Vittorio. Isso vai dar merda, eu gritei algumas vezes. Há testemunhas! Mas todos mandavam eu me calar.

- Controle-se, homem. Não vá estragar tudo novamente – ordenou-me Toninho. – Não há nada para dar errado. Somente controle-se.

Começamos uma rápida discussão. Meu medo era suficiente para me fazer querer desistir. Marco avisou que já começáramos o roubo, não havia como escapar dali sem problemas, porque seu Vittorio nos acusaria pelo assalto. O próprio seu Vittorio confirmou que estávamos num ponto sem volta. Tentou olhar-me nos olhos, mas mantive-me por trás dele, o tempo todo. Eu quis fugir, esbocei sair correndo.

- Vai correr novamente, Zoio? - perguntou-me Toninho, e ergueu a arma em minha direção.

Eu disse a ele que meu corpo não faria sentido na cena, mas isso não o incomodou.

- Foda-se. Já sou fugitivo. – foi o que me respondeu.

Marco, que não era fugitivo procurado, encerrou o assunto, lembrando sua situação a Toninho. A princípio, sairia limpo, então não queria se preocupar com uma cena do crime mal montada. Era para parecer um latrocínio e só. Parecer, não, eu disse. É para ser.

- Vamos lá, rapazes, é hora. – disse Toninho, entregando a mim e a Marco nossas armas. Sem cerimônia, anunciou – Preparar! Apontar! Fogo!

Então tudo ficou vermelho.

Não foi uma morte ética, limpa, rápida e indolor. Por muito tempo seu Vittorio sangrou. Seus gritos, sua dor, seu sangue me fizeram paralisar pela segunda vez naquela noite. Os caras fugiram imediatamente, levando toda a grana, todas as coisas. De minha parte, fiquei ali. Tentei acalentar minha vítima conforme morria. Abracei-o, dei-lhe esperança. Sujei-me de seu sangue, incriminei-me. Assim a polícia me encontrou, chamada pelo som do disparo.

Sim, do disparo. Fiquei sabendo disso mais tarde, já na delegacia: somente o meu revólver tinha bala. Somente eu matei seu Vittorio. Toda uma morte, e não apenas um terço. Uma morte inteira e longa, pois meu estado de nervos fez com que meu tiro não fosse muito certeiro. Assim como só soube, tempos depois, pela carta de suicídio que deixou encaminhada a mim quando soube do assassinato de seu pai, que Giovane realmente não tinha matado sua mãe.

Os caras, por sua vez, nunca foram encontrados, pelas notícias que tenho. Acabaram sem saber, pelo menos naquela ocasião, o que é matar um homem - mas souberam tirar minha vida com maestria.


Por Thiago F. * 06:47 * terça-feira, 24 de março de 2009