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Capítulo único


Para ler ouvindo How to disappear completely, do Radiohead.




Acordo. Primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo acordar. Com a chuva. Não com o barulho da chuva (estou acostumado a dormir com barulho). Não: com a própria água. Cada dia acordo num lugar diferente. Sempre na rua. Às vezes, embaixo de marquises. Outras, como hoje, não tenho tanta sorte. Não sou morador de rua. Apenas fujo.

Tenho alguns problemas de memória. Não me lembro, por exemplo, se matei Lúcia. Minha namorada. Acho bem possível. Mas não tenho certeza. É por isso que fujo. Devem estar me procurando. Se eu tentar entrar em contato, posso ser pego. Além disso, não quero falar com os pais dela ou com quem quer que a conheça. Eles já devem saber que fui eu. Caso eu realmente a tenha matado. Com uma faca. Seria embaraçoso, desagradável.

Eu poderia falar com algum amigo. Só para me interar da situação. Mas meus amigos são justos. Se eu matei Lúcia, eles vão me entregar. Já estão me procurando, junto com todos os outros. Tenho certeza. Não tenho ninguém do meu lado. Dizem que sou paranóico. Mas se nem nos amigos eu posso confiar, em quem mais? Por isso estou só.

Além do mais, mesmo se eu quisesse, esqueci meu celular. Sem ele, não sei o número de ninguém. Tudo o que tenho comigo é algum dinheiro e a roupa do corpo. E uma faca. Terei a usado para matar Lúcia? Fui cruel? Não sei dizer. Sei que poderei usá-la para abrir um pão. Mas não tenho nada para passar no pão. Comerei direto.

Curioso é que algumas memórias eu não consigo perder. Por exemplo, um janeiro de muitos anos atrás. Caía uma chuva de verão, como a de agora. O dia em que nasci. Foi preciso fazer uma cesariana. Minha mãe teria dito que eu esqueci de nascer e que foi preciso me arrancar lá de dentro dela. Teria dito se não tivesse morrido no parto. Com a chuva, faltou luz e a operação foi bem precária. Lembro que me tiraram de dentro dela. Houve um relâmpago e pude vê-la aberta pelo bisturi. Chorei. Uma cena e tanto.

Depois disso, não lembro de muitos acontecimentos da minha vida. Ou de muitas pessoas. Lúcia apareceu recentemente. Foi assim:

- Augusto.

Seu tom de voz era o mais frio, calmo e sério que eu já havia escutado. Naquele momento, meu corpo tremeu. Eu morava sozinho. Estava dormindo. Morar sozinho e ouvir uma voz quando se está dormindo, uma voz num tom tão sério que te faça acordar, num tom tão calmo que te faça pensar que ainda não acordou e num tom tão frio que faça teu corpo tremer, é algo realmente de dar medo. Então me cobri.

Pelo seu jeito de falar, compreendi imediatamente que se chamava Lúcia.

Eu dormia sem coberta por causa do calor. Mas, ao me cobrir, tive o cuidado de fazê-lo da cabeça aos pés. Desde criança, se eu acordava com medo, do que quer que fosse, eu me cobria todo: a cabeça para não ver qualquer coisa que pudesse estar no quarto, e os pés para não serem puxados. Pelos seres que passaram a habitar o meu quarto quando eu era criança e que me davam muito medo. Passaram-se 20 anos e eu ainda tenho medo. Passaram-se 2 minutos e voltei a adormecer. Quando acordei, estava embaixo da cama.

Desde então, passei a acordar em lugares diferentes. Não me lembro mais que cama, que casa era essa. Nunca mais dormi ou acordei lá. O mais estranho é que não me lembro de sonho algum depois desse. Sei que sonho. Sonho sempre. Sonhos sempre brancos, com pessoas brancas, roupas brancas e luzes brancas. Não sonho outra coisa. Sonhos que não parecem fazer o menor sentido, mesmo que eu conseguisse recuperá-los na minha cabeça.

Percebo que terminei o desjejum. Não reparei como consegui. Talvez não deva digredir tanto. Preciso encontrar uma saída para a minha situação. Preciso saber se matei mesmo Lúcia, mas não quero saber que a matei. Que arranquei seus belos olhos com a faca e os guardei no bolso. É preciso ir adiante. Recomeçar minha vida. Um novo nome, um novo lar.

Lar? Tenho acordado sempre em lugares diferentes. Já deve fazer um bom tempo. Não lembro direito. Deve ser algum bloqueio mental. Algo que não quero saber. Mas eu sei o que eu não quero saber. Acabei de admitir. Quer dizer, admito que sei, não que fiz. Não posso ter matado Lúcia, cuspido nas suas entranhas ainda quentes. Terei matado? Que confusão. Na rua, infelizmente, faltam psicanalistas.

Por outro lado, não faltam pessoas fantásticas. Como Sjeiji. Sjeiji é um mendigo, sim, mas é também uma entidade paranormal. Transcendental, talvez, irracional, lisérgica, não importa. Ele tem um poderzinho especial. É difícil dizer. As pessoas estão acostumadas com explicações científicas e, no caso de dele, não há o que explicar. É preciso descrever. Sjeiji pode entrar no sonho das pessoas. Quando ele dorme, ele aparece lá. Então, tecnicamente, ele não dorme, está sempre acordado. No mundo real ou no sonho dos outros. Não é que as pessoas sonhem com ele. Nem que ele sonhe com elas. Ele se desloca para os sonhos de quem quer que seja. Qualquer pessoa do mundo. Não sei como ele faz isso, se ele vira um vapor, se ele atravessa uma ponte de arco-íris ou sei lá o quê. Na verdade, não sei nem o que ele faz lá. Pra mim, parece invasão de privacidade. Mas o fato é que ele tem esse poderzinho. E é meu amigo.

Assim sendo, normalmente eu não confiaria nele. Poderia me entregar às autoridades. Mas, sendo mendigo, ninguém acredita nele. Eu acredito. Então peço para ele que apareça nos meus sonhos. Converso com ele no topo de um prédio. Só pra dar um efeito estiloso. Nunca acordei sobre prédio algum, muito menos caí. Portanto, não tenho medo de conversar lá em cima.

- E o que eu vou fazer no seu sonho?

Explico que é só pra me lembrar depois, caso haja alguma revelação sobre eu ter estripado Lúcia com a faca que carrego e ter enterrado as partes de seu corpo em diferentes partes da cidade. É o tipo de coisa que eu posso esquecer. Fica tudo acertado. Tomamos um café num boteco com vista para a estrada. Café me faz dormir.

Sonho. Primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo sonhar. Quimeras brancas descortinam-se diante dos meus olhos. Fantasmas típicos com seus lençóis. Que cliché. Sjeiji caminha placidamente ao meu redor. Funcionou. Saber que sonho é sonhar? Perguntemos a esses senhores e senhoras de branco. Contem-me a verdade. Matei Lúcia com a faca que carrego, o filho que carregava, e lavei minhas mãos com a água da chuva? Não me respondem. Ao menos, não numa língua que compreendo. Giram ao meu redor, como Sjeiji. A luz é forte. Sjeiji, pergunte a eles. Quero minhas respostas.

- Eles não podem me ver ou ouvir. São apenas personagens do seu sonho. Fale você com eles.

De nada adianta. Não respondem. Apenas me servem uma comida estranha. Por que eu precisaria comer em um sonho? Caminho até um vaso sanitário. Ajoelho. Vejo um último reflexo de Narciso na água imunda antes de vomitar o que eles me deram para comer. Como pude querer confiar em seres oníricos? Ainda mais em sendo este um pesadelo. Eles não agem racionalmente. E como poderia a resposta estar em mim sem eu saber? É claro, se eu tivesse esquecido. Mas vejo que não há nada escondido por aqui. É tudo tão iluminado, tão visível, tão claro. Continuo sem saber. E nem poderia saber - afinal, sonhar que sei é saber?

Sonhar, saber, acordar, esquecer. Eu. Pronome pessoal reto, primeira pessoa do singular. A cidade dorme. Augusto acorda. Não chove mais. Augusto está na rua. Não sabe onde. Apenas foge.



[parte desse conto foi escrita com colaboração de Rodrigo Brod, em 2002 ou 2003]


Por Thiago F. * 08:14 * quinta-feira, 2 de abril de 2009