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Sob o signo da águia



Para ler ouvindo Hello Hawk, do Superchunk.







18 de março – Está difícil acordar cedo. Não só porque estou sozinho e desinteressado de tudo. Os pássaros que tinham feito ninho no ar-condicionado e cantavam irritantemente ao nascer do sol sumiram. Mais uma família desfeita. Acabo dormindo mais, e há tanta coisa que preciso fazer na rua. Mas não dá pra sair na rua de pijama. Então não tiro o pijama. Peço almoço pelo telefone. Também a janta. Vejo o mundo pela janela, de binóculos. Onde Rita aparecerá? Ela que sempre ficava xeretando apartamentos e vidas alheios. Tudo que me deixou foram esses binóculos. Terá esquecido ou deixado de propósito?

21 de março – Rita não atende meus telefonemas. Nenhuma mensagem na minha caixa de entrada do Thunderbird. O palmeirense da rua Alagoas passou a fechar as cortinas. Ela também tinha o mau hábito de torcer para o Palmeiras. Sinto que é ali que devo concentrar meus esforços.

22 de março – Hoje vi algo muito estranho quando olhava para a praia. Parecia que várias nuvens pequenas passavam seguidamente em frente ao sol, obscurecendo-o por alguns instantes. Olhei para o céu e, para a minha surpresa, não eram nuvens, e sim um grande pássaro planando em círculos. Bem grande. Acompanhei-o até que pousasse sobre um prédio. Com os binóculos, pude ver que era uma águia. Muito estranho.

23 de março – A águia parece ter gostado de Santos. Continua aqui. Pesquisei na internet e vi que é uma Haliaeetus leucocephalus. A típica águia americana. É linda. Tem porte no voo, dignidade. Estranhíssimo. O que ela faz no hemisfério sul?

24 de março – Rita mandou um e-mail. Não quer os binóculos de volta. Não se importa mais com a vida alheia. Apesar disso, me disse que o caseiro do número 295 perdeu a mão tentando salvar seus gatos do rottweiler do dono. Coitado, já tinha perdido o cabelo quando resolveu apagar um incêndio lá. Muito azar.

25 de março – Tenho uma teoria. É o aquecimento global. Desregulou todo o clima do planeta. Durante o inverno no hemisfério norte, a águia deve ter buscado um clima menos frio. Perdeu-se no caminho. Chegou aqui. Muito interessante.

26 de março – Todo mundo começou a falar de um tal assassino de gatos. Pedaços de corpos dos felinos têm sido encontrados pelas ruas do Gonzaga. Eu sei que é ela. Faz todo sentido. Reparei que está cada vez maior e mais forte. Mais bonita. Vou mandar um e-mail para o Jornal da Orla. Quero que eles tenham a notícia, não A Tribuna.

28 de março – Não tive resposta do e-mail e, o que é pior, não foi publicada minha notícia no jornal. Vou insistir. Mas a merda desse jornal semanal dá muito chance para a Tribuna publicar o furo.

02 de abril – A águia! Ela me atacou! Não consigo dormir. Foi terrível! Terrível! Vocês não têm ideia! Ela sabe que eu sei dela, ela sabe de mim! Ontem, à tardinha, resolvi tirar uma foto. Precisava de um prova para a imprensa. O flash disparou automaticamente. Não pude fazer nada. Ela percebeu e emitiu um barulho, um grito, um ganido, não sei... um som do inferno. E olhou para mim. Com aqueles olhos! Fez uma curva, depois outra. Sempre me fitando. Foi embora. Fiquei aterrorizado. Mal mude dormir. Mas pela manhã... pela manhã, acordei brusca, violentamente, com o som do vidro da minha janela se quebrando. A águia! Ela arremessou uma carcaça de gato na minha casa!

06 de abril – Não consegui mais sair à rua. Nem mesmo olhar pela janela. Tem ventado frio todas as noites aqui em casa, com o buraco no vidro. A cortina não dá conta. O telefone tocou mas eu não atendi. Foi você, Rita? Por favor, mande um e-mail.

07 de abril – Acordei com vontade de olhar novamente para fora. Talvez tenha me sentido incentivado por ouvir uns gritos, poderia estar acontecendo alguma coisa lá fora e eu precisava saber. Abri a cortina – e havia sangue na minha janela. Sangue! Muito sangue! Não o sangue do gato, que eu já havia limpado. Não – ela estava lavada em sangue, parecia um vitral. Eu vi o mundo vermelho lá fora – somente através do buraco do gato eu podia ver as coisas normalmente. Fiquei em choque: o que foi que eu fiz? O que ela pretende comigo? Logo depois, ouvi sirenes. O interfone tocou e Dona Mirene, a síndica, me informou que Seu Borges, de dois andares acima do meu apartamento, pulou da janela. O sangue era dele. Estranhamente, senti-me aliviado.

08 de abril – Vejo no jornal do almoço que a polícia descartou a hipótese de suicídio. Seu Borges morava sozinho, e havia arranhões em seu corpo. O mais cruel é que ele estava sem os olhos. Rita fica bem na TV entrevistando os nossos vizinhos. A familiaridade com eles faz a reportagem correr bem. Me pergunto por que será que ela não me entrevistou. Mas a resposta é óbvia. Problema dela: eu sei muito bem quem, ou melhor, o que matou o Seu Borges. Sim, e se eu conseguir capturá-la, Rita terá que me entrevistar.

13 de abril – Não a vejo há alguns dias. Mas sei que ainda está em Santos: os gatos continuam morrendo. A polícia está perdida. Também com o mistério do Seu Borges. Se tudo der certo, resolvo dois casos de uma só vez. Serei um herói. E Rita, minha Lois, voltará para mim. Já tenho um plano. Falta a coragem.

15 de abril – Acabo de complementar minha teoria. Acredito que está perfeita agora. O vulcão islandês estourando daquele jeito, fechando os aeroportos da Europa. A águia em Santos. Tsunamis, terremotos, gripe suína, o tempo louco, o fim do meu casamento, tudo de uma só vez. Todos esses sinais – isso nunca aconteceu antes. Nada está em seu lugar. Fica claro como nunca. Numa palavra: a vingança da natureza. Ela quer derrotar os homens. Por tudo que estamos fazendo. Está aí, é tão evidente que ninguém vê: está nos jornais, no Discovery, em toda a parte. Mas agora sabemos. E não vamos ceder tão fácil. Águia, águia! Teu dia da morte está chegando!

16 de abril – Li no jornal que, no horóscopo egípcio, hoje é o primeiro dia do signo de Ptah. O deus criador de todo o universo para os egípcios. Sendo que eles inventaram a religião, a astrologia e a ciência, deviam estar certos das coisas. O vulcão é a prova final, inequívoca, de que a guerra começou. Saio agora para buscar um gato na casa de uma tia. Rita, querida, caso algo dê errado, deixei uma mensagem após o sinal na sua caixa postal.

17 de abril – Fiquei zanzando com o gato na rua. Provocando. Após algum tempo, perto do Orquidário, a águia apareceu. Astuta, voraz. Linda, devo admitir ainda uma vez. Voou atrás de mim, e por pouco não me arranca pedaço. Pretório não teve a mesma sorte. Enfim, tudo correu de acordo com o planejado, e pude abater minha inimiga. Infelizmente, não houve testemunhas. Nem foto foi feita: tive que escolher entre a máquina de tirar retratos e a máquina de tirar vidas.

25 de abril – Rita novamente pareceu não se importar com minha informação. Nem mesmo o fim das mortes de gatos nos últimos dias despertou o interesse dela pela minha história. Com o calor, a águia começou a apodrecer, apesar de todo o gelo que comprei para protegê-la. Sem alternativa, tive que devorá-la. Tinha gosto de frango.

30 de abril – Mais cinco dias sem que alguém me procurasse. Não faz a menor falta.

04 de maio – Sinto-me leve. Percebo plumas crescendo em mim. Um certo apetite por gatos, pequenos pássaros. Carne humana. Já se torna evidente que estou tornando-me a águia. Em breve, voarei. Serei Hórus. Meu destino finalmente se desvela. Abandonado pela humanidade, só me resta trocar de lado nesta guerra final dos homens contra o mundo. Sim, passo para o lado dos deuses, da eternidade. O lado que inevitavelmente será vitorioso. Rita, onde você estiver: feche as janelas.


Por Thiago F. * 10:32 * quarta-feira, 28 de julho de 2010