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Ela entrou pela janela do banheiro.

Não é bem verdade. Acontece que eu sempre quis começar esta história com um nome de música. Mas que ela entrou por uma janela, isso é verdade. Algo digno de Peter Pan - ou seria melhor dizer Sininho? Era tarde quando ela chegou pela primeira vez, mas como era verão e não tínhamos aparelho de ar condicionado, as janelas estavam abertas. Só não me lembro por qual janela foi.

Ela era linda, como todas as musas.

Disse-me coisas que julguei bonitas, e só a mim. Poucas palavras, mas belas. Disse e foi embora. Logo estabeleceu sua rotina: todo dia ela vinha, falava um pouco e ia embora. Nunca terminava suas histórias. Algo digno de Sherazade.

Isso estava me matando.

Eu pensei, Sempre quis ser poeta. Escritor. Artista. Sei lá, qualquer coisa. Por que ela não me contava tudo? Por que só de bocadinho? Eu não tinha imaginação para terminar os poemas, as histórias, as idéias, sozinho. E ficava tudo no ar. Nada fazia muito sentido. Nada ia até o final. Sempre um novo começo. E era tudo tão belo, juro que era. Porra, era a minha oportunidade. Eu tinha que aproveitar. De qualquer maneira.

Mas somente com a chegada do inverno foi-me possível fazer algo. As janelas já não ficavam abertas. Ela simpaticamente dava duas batidinhas, nós abríamos e ela entrava. Um dia, depois de ter entrado, a janela se fechou atrás dela com um estrondo. Ela ficou atordoada. Peguei-a com um apanhador de borboletas. Como nos videogames.

A corrente que eu tinha preparado era bem confortável: na parte que prendia sua perna, era revestida com algodão e uns trapos de ótima textura. Eu diria até que era bonita. Além disso, era grande o suficiente pra ela se movimentar com certa liberdade pelo meu quarto. Porém, logo nas primeiras noites, o barulho me incomodou profundamente: quem poderia ter adivinhado que uma musa não dorme nunca? E que não pára quieta? Então tive que tirá-la da corrente e colocá-la numa jarra de vidro. Como nos videogames.

Ocorre que o que realmente tirou meu sono foi que ela parou com suas histórias, seus poemas, suas palavras. O único som que porventura emitia era pra se rebelar. Ainda hoje me custa entender por quê: ela estava ali comigo, abrigada do inverno; eu lhe oferecia comida, da melhor que eu poderia servir - cheguei mesmo a acreditar, por uns dias, que musas não comiam. E tudo que eu queria em troca era o que era meu de direito, a inspiração que ela sempre trouxera, só que integral, e não aquelas historinhas e poeminhas soltos. Queria um best-seller. Se eu pudesse publicar um best-seller, eu conseguiria estabelecer minha carreira sozinho depois, decolaria com minhas próprias asas.

Os choques começaram por acaso. Num dia em que faltou luz, percebemos que a musa ainda emitia um brilhinho, desde que não olhássemos diretamente pra ela. Aí a gente fez uma ligação dela na rede elétrica, usando a antiga corrente - dessa vez, sem o algodão e os trapinhos, pra dar contato. Conseguimos ver um pouco de futebol, e quando a luz voltou, ouvi novamente sua voz - não um poema, ou um verso, mas um grito. A partir de então, passei a periodicamente estimulá-la pra ouvir sua voz de novo: quem sabe ela não teria palavras novas para mim?

Um dia, ela amanheceu morta. Tomei-a em meus braços, fiz-lhe um carinho, beijei-lhe a testa. Por um momento, quase chorei: como pôde o destino ser tão cruel? Todo aquele amor, simplesmente acabado. Mas não me deixei vencer pela fraqueza. Já era início da primavera, e esse fato me fez ver que tudo se passa em ciclos. A janela, que voltara a ficar aberta naquela estação, dava vista para o jardim do prédio. Arremessei o corpo de minha amada em direção a ele. Ela serviria de adubo, daria vida àquela terra que estava novamente produzindo seus frutos e flores. E um dia voltaria para mim, pela janela, não a do banheiro, não me lembro qual, tanto faz, desde que voltasse. Passou aquele verão, e alguns outros. E ainda aguardo minha musa.



Por Thiago F. * 21:02 * terça-feira, 9 de setembro de 2008