ARDEVERBO


Links
Desenhos
Gisele Quer Morrer
Comunicação Exponencial
A Saga de Barackão
Rua Bosta
Tira bom, tira ruim
8-tracks Mixtapes

antigos
| 06/05/2008 |
| 03/06/2008 |
| 18/06/2008 |
| 01/07/2008 |
| 16/07/2008 |
| 22/07/2008 |
| 29/07/2008 |
| 06/08/2008 |
| 18/08/2008 |
| 02/09/2008 |
| 09/09/2008 |
| 16/09/2008 |
| 28/09/2008 |
| 11/10/2008 |
| 24/10/2008 |
| 08/11/2008 |
| 12/01/2009 |
| 27/01/2009 |
| 10/02/2009 |
| 09/03/2009 |
| 24/03/2009 |
| 02/04/2009 |
| 15/04/2009 |
| 18/05/2009 |
| 03/06/2009 |
| 20/06/2009 |
| 18/07/2009 |
| 09/08/2009 |
| 27/08/2009 |
| 16/09/2009 |
| 28/11/2009 |
| 25/01/2010 |
| 08/03/2010 |
| 25/06/2010 |
| 28/07/2010 |
| 21/02/2011 |
| 31/07/2011 |
| 29/01/2013 |
| 05/05/2013 |



Luana tem razão. É injusto. Não é assim que deveria ser. Fátima foi embora. A nossa Fá. De uma hora para a outra. Quem poderia imaginar? Isso não é o tipo de coisa que acontece com a gente, é o que todo mundo pensa. Tão cheia de vida. Tantos planos a realizar. Ela teria tudo, com aquele brilho que era só dela. A esperança é a última que morre, é o que todo mundo pensa. E todo mundo está errado.

Num enterro, não há nenhuma qualidade estética, nenhum romance, nenhuma fantasia. Não chove como nos filmes. Silêncio e cheiro das flores também mortas. As flores de plástico não morrem, diz a música. Não somos de plástico. Somente pessoas tristes num lugar triste, perante a bruta realidade da morte.

É essa realidade que faz Luana e Karina andarem lado a lado, com uma súbita lucidez da transitoriedade de tudo. É um momento de arrependimentos. O passado nos assola por ser a única vida que tivemos. A morte, por ser a única certeza futura. A vida que poderia ter sido e não foi, poderá ainda ser? Fátima acreditaria que sim. Acreditar era sua melhor qualidade. Entretanto, para nós, o presente é o que resta, sob o signo da angústia. Sinto que deveria ter falado mais. Expressado meu carinho. Éramos tão amigas.

O silêncio entre as duas é eloquente. Também se arrependem. Sabem que deveriam se perdoar e que não conseguirão. Se eu pudesse, choraria. Porque este será um adeus muito maior para nós meninas. Éramos as quatro tão amigas. Sem Fátima, talvez não consigamos. O vazio que ela nos deixa já é um espaço entre nós. Espaço que só crescerá com os dias, os meses, os anos.

Tomara que lembremos só dos bons momentos. Das risadas, das baladas, das viagens. Nunca dos momentos ruins. Momentos ruins passam, ou pelo menos é o que espero. No nosso caso, têm custado a passar, é verdade. Talvez só passem quando formos velhinhas. Um dia, quem sabe, quando formos mais maduras e mais sábias, poderemos nos reencontrar e dar risadas deles. Fátima nunca será velhinha. Pelo menos não terá que se lembrar deste dia tão triste. Se é que é consolo não ter que se lembrar do próprio funeral.

Um abraço coletivo. Nada muito pessoal. O silêncio ainda se impõe. Fátima, no meu lugar, estaria falando. Sempre tinha suas palavras meio bobas mas alegres. Uma eterna criança. Diferente de nós. Pois é hoje que nos tornamos mulheres. Diante da vida. Os dias de meninas ficaram para trás. A pena é ser um início marcado por um fim. Curioso ser primavera: as folhas renascem, a natureza dá um novo início à vida. Outras pessoas devem estar achando o dia agradável. Se eu pudesse, sorriria.


- Saúde!
- Tá bom, Ka... não precisa brindar a cada chope que chega na mesa.

Marcele, Marcele. Deve achar que estou bêbada.

- Deixa de ser chata, Ma. É seu aniversário. Temos que comemorar!

Essas reuniões estão cada vez mais pentelhas. Esses papinhos de namorado, faculdade. Sempre a mesma coisa. Parecem crianças. Quando vão crescer? Por outro lado, será que não sabem mais se divertir? Tão novas, tão velhas. Bom, eu que não vou esquentar minha cabeça com isso. Até que tem uns caras interessantes neste bar. Um brinde a eles!

- Olha lá, Ma... acho que ele está olhando pra você.
- Acho que para você, isso sim. - responde. Que falta de autoconfiança.
- Ei, que história é essa? Hoje é dia só das meninas!
Fátima, Fátima...

- Até a Lu descolou por um tempinho do Topo! É um momento histórico!

Rimos bastante, menos Luana. A Fátima inventou esse apelido pro Henrique, o namorado dela, por causa das orelhas dele. Topo Gigio. Ela odeia. Na verdade, é bem engraçado.

- Meu, nada a ver! Eu saio sozinha a hora que eu quiser. - defende-se Luana.
- Parece que você não quer muito, não é?
- Karina, você fica na sua. Não te dei essas liberdades. - desta vez, ataca.
- Meninas, parem com isso! - intervém Fátima. - É aniversário da Ma, vamos só comemorar. Nada de brigas.

Um breve silêncio.

- Que frio, hein. - arrisca Marcele uma mudança de assunto.
- Pior que eu estou com um resfriado que não passa. - emenda Fátima.

Foda-se.

- Olha aqui, Luana, você deveria é me agradecer. É graças a mim que você está com o Topo!
- Karina, Topo é o caralho. O nome dele é Henrique. Ele não é teu amigo pra você chamar ele por apelido.
- Topo, Henrique, que se foda. Se eu tivesse deixado o Lucas para você, hoje você não estaria toda felizinha com seu namoradinho.
- Você acha que isso é consolo? Eu gostava do Lucas! Você não tinha porra nenhuma que ficar com ele. Você nem gostava dele!
- E daí? Ele gostava de mim. Que diferença faria para você? Ele não ia ficar com você de jeito nenhum.
- Ah, vá à merda.
- Nem se ele quisesse. Devagar daquele jeito. Se não sou eu para tomar uma iniciativa, não rolaria nada ali.
- Meninas, ...

Fá tenta em vão recuperar um suposto clima agradável.

- Dá um tempo, Fátima!
- Você é tão escrota que ainda se orgulha de ter dado em cima do cara que eu estava a fim.
- Só estou falando que você deveria me agradecer. Você não está feliz hoje? Pronto.
- ...
- Além do mais, garanto para você que não perdeu nada. Bem sem graça o Lucas. Se eu não estivesse ficando com o Gui também, teriam sido os piores meses da minha vida.
- E teriam sido os melhores da minha!

Ah, não. Ela vai começar a chorar de novo. Puta que pariu, essa história não acaba.

- Poxa, Ka... você pegou pesado agora... - diz Fátima, meio brava, meio fofa.
- Olha, eu preciso ir. Tenho outro compromisso, tá? Beijos.

Um compromisso naquela mesa ali do moreno.


- Meu, que saco! É muito injusto.
- Deixa pra lá, Lu. - responde-me Fátima.
- Como assim, "deixa pra lá"? É só nisso que eu consigo pensar.
- Então pensa em outra coisa. - insiste, como se fosse fácil.

Pensar em outra coisa. Só consigo pensar nisso. Nem durmo. Karina e Lucas, Karina e Lucas, Karina e Lucas, Karina e Lucas. Ka e Lu, Ka e Lu, Ka e Lu. Saco! Era pra ser Lu e Lu, Lu e Lu, Lu e Lu! Será que elas não veem isso? Tudo bem que eu não falava nada a respeito, mas elas tinham que saber. A Ka não podia ter feito isso comigo.

Grito e/ou choro. Não entendo muito bem o que está acontecendo, o que estou fazendo. Sou um zumbido interno, externo, incessante. Fátima me consola. Sente pena de mim. Tudo é tão fácil para ela. Bonita, inteligente. Nunca estará nessa situação. Tudo vai dar certo para ela. Tão esperançosa e tão predestinada. Parece que tudo o que é ruim só acontece comigo. Vai ver, sou predestinada também.

Marcele chega sozinha. Não foi o combinado.

- Cadê ela?
- A Ka estava de carro também, então falou que vai chegar daqui a pouquinho. - explica Marcele.
- A filha da puta está com ele, né?
- Lu, - interrompe-me Fátima - calma, não fala assim. Vocês são amigas.
- Você acha que isso que ela fez é amizade?
- Lu, ela não sabia. Você nunca falou nada! - Marcele, sempre se achando com a razão.
- Ah, agora você vai ficar do lado dela? Puta que pariu, né.
- Não é questão de ficar do lado de ninguém, é questão de conciliar.
- Conciliar? Vocês acham o quê? Que eu posso tranquilamente conviver com isso?
- Seja um pouco adulta, Lu... - insiste a Marcele.
- Ah, eu não sou adulta? Ela parece uma criança, quer ter tudo e fazer de conta que não deve nada!
- Que drama... - começa Fátima.
- Drama é o cacete!
- Tá bom. Tá bom.
Instala-se o silêncio total, ou quase, pois é interrompido por meus soluços. Ninguém fala nada e o mal-estar é comum. Lamento passar por isso. Tenho pena de mim mesma. O tempo corre de maneira estranha. Às vezes rápido, outras devagar. O que será que vai acontecer? Temo.

A campainha toca, Marcele abre a porta e Karina finalmente entra. Percebe que choro:

- Lu! Aconteceu alguma coisa?


Estou tão feliz! Foi a formatura dos meus sonhos. Dos nossos sonhos. A turma toda, a festa. Tudo perfeito. Finalmente deixamos o tempo de escola para trás. Finalmente nos tornamos mulheres.

- Meninas, olhem! O sol está nascendo.

Foi para isso que viemos à praia. Para ver um novo dia surgindo. Descalças, com os saltos nas mãos, não nos importamos com a areia nos vestidos caros. Meio bêbadas, é verdade, mas quem se importa? O mundo é nosso. O futuro será o que desejarmos. A partir de hoje.

Karina se adianta. Está tão linda. Irradia felicidade. Parece flutuar enquanto caminha em direção à água. "Olha a série!", grita dando risadas. É a que mais bebeu entre nós. Todas rimos. Na beira do mar, dobra-se para molhar as mãos. Joga água em nossa direção e nos convida. Vamos todas - Marcele demora um pouco, parece não querer muito ir até lá.

- Você não tem o direito de desanimar! - repreende Luana.

Por isso, a arrastamos e jogamos no chão. Ela ri. É claro, não está desanimada. Somente enrola, como sempre. Devia estar pensando com seus botões. Então a cobrimos de areia molhada, o que logo se transforma numa guerrinha. Que divertido!

Uma trégua. Estamos exaustas. Acabamos de passar por uma noitada. Deitamos. Um pouco de silêncio.

- Acho que poderíamos ficar aqui para sempre... - diz Karina.
- Claro que sim! Mas por que deveríamos? Esta cidade será pequena demais para nós. Seremos tudo o que quisermos.
- O que tem a ver? Não podemos querer ter este momento para sempre? Viver sempre agora? - questiona Karina.
- Sim, mas não precisamos! Teremos momentos como este para sempre, isso é o que importa. Sempre juntas. O verão está aí, por exemplo. Cada dia que passa será melhor, vocês vão ver. A vida toda será assim.
- Cada uma seguirá o seu caminho. Será que não vamos nos afastar? - teme Marcele.
- É verdade, cada uma tem um caminho. Mas já tivemos cada uma nosso caminho antes e ainda assim estamos aqui. O que eu quero dizer é que vamos crescer, sem deixar nada disso para trás. Você será tudo o que quiser, eu também. Não me entendem?
- Se você pode ser tudo, por que ser justamente jornalista? - pergunta-me Luana.
- É só para começar. Eu quero escrever.
- Escritora? Ha! Duvido! Uma sonhadora, isso sim... - diz Marcele.

É vaiada por nós outras.

- Sua chata. Deixe de ser estraga prazeres. Escritora, sim, senhora. Vou começar agorinha para mostrar para você.

Com a ponta do salto, escrevo na areia:

Amigas para sempre

Para ler ouvindo Orange Blossom, do Rocking Horse Winner.



Por Thiago F. * 12:39 * segunda-feira, 18 de maio de 2009