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Já leram Leibniz?

Para ler ouvindo Glory to the world, de El Perro del Mar.



Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

(...)

Quantos Césares fui!

Fernando Pessoa – Pecado Original



Rosely pôs mais cerveja no copo americano, arrastou-o pela mesa amarela fazendo um círculo sobre o logotipo da Skol e deu um gole.

– Então, não sei.
– Liga sim. - insiste Ivete.
– É, não vejo problema. Acho que, se fosse eu no lugar dele, até gostaria. – complementa Paulo.
– Mas se ele quer, já não teria ligado?
– Sei lá. Às vezes, né?
– É. E não te custa nada.

Tudo é tão fácil para os dois, pensou Rosely. É tanta harmonia que chega a dar nos nervos. Matou a cerveja e repousou o copo.

– Não sei. Tem cada decisão que a gente tem que tomar...
– Rosely, não é tão difícil assim, vai. E se der errado, qual é o problema? Tem tanto homem nesse mundo. Se não for o Dênis, vai ser outro. É até bom saber logo.
– É que...
– O quê?
– Também to com outra coisa na cabeça.
– Tem outro cara? Quem?
– Não, não é isso. É complicado.
– Rosely, menina! Conta!
– Não. É outra coisa mesmo. – Rosely esboçou um rabo de cavalo, olhou para o lado, suspirou e soltou os cabelos pretos e compridos. – É o seguinte.
– Hm, lá vem...
– Deixa ela falar, Paulo.

Paulo ergueu a mão e fez sinal de traz mais uma para o garçom.

– Um dia desses, não faz nem uma semana, me apareceu uma dupla minha. Pelo espelho do quarto. Em todos os espelhos de casa, na verdade.
– Como assim, um dupla?
– Era eu, mas uma outra versão. Uma versão diferente. De outro mundo.
– Acho que vou cancelar aquela outra cerveja. Garçom!
– Não, Paulo. É sério. Pode deixar mais uma cerveja. Escuta só, é sério. Vocês já leram Leibniz?
– Não.
– Quem?

Paulo e Ivete tinham começado a namorar na faculdade, e não assistiam muito às aulas.

– Vocês lembram que eu fiz uma iniciação científica sobre cálculo infinitesimal?
– Ãhã.
– Então. Quem desenvolveu o cálculo foi esse Leibniz.
– E foi ele quem apareceu no seu espelho?
– Deixa ela falar, Paulo.
– Não, escuta. Vocês lembram daquele Breno?
– Que tá morando nos Estados Unidos?
– Não, não esse, o Breno da Filosofia.
– Puta, lembro. Chato pra caralho.
– Então, ele me passou um trabalho que ele fez...
– Você tá ficando com o Breno da Filosofia? Puta merda, Rosely.
– Não, não é isso. Quer dizer, uma vez ou outra, mas faz tempo.

O garçom trouxe a cerveja.

– Puta merda, hein, Rosely?
– Posso falar? Posso?
– Tá, vai, continua...
– Vê se dá um tempo, Paulo.
– Então, ele me passou um trabalho que ele fez sobre esse Leibniz.
– Ele também estudou cálculo infinitesimal?
– Não, na filosofia eles estudam outras coisas e esse tal de Leibniz tem uma teoria sobre Deus e o universo e tudo o mais.
– Meu Deus.
– É o seguinte. Segundo ele, antes de criar o mundo, Deus considerou todas as possibilidades, todos os mundos possíveis, e enfim criou o melhor entre eles. Tipo, o mundo poderia ser diferente, mas seria pior. De todas as formas que o mundo poderia ser, Deus criou a melhor delas, porque ele é todo poderoso, perfeito, essas coisas. Tá dando pra entender?
- Sim, vivemos no melhor dos mundos.

Paulo e Ivete deram um selinho. Rosely grunhiu mentalmente.

– Mas e daí? Continua.
– Então, essa semana apareceu no espelho uma versão minha de outro mundo possível.
– Como assim? De um universo paralelo ou uma dimensão alternativa à nossa?
- Ou da sua imaginação?
– Isso! Quer dizer, dimensão paralela, não imaginação. Acontece só é que somos nós que vivemos numa dimensão alternativa à dela. A dimensão dela é mais real, parece. É melhor. É a melhor das possíveis.
– Mas os universos não são igualmente paralelos? – Paulo passou de desdenhoso a cético. – Se a nossa dimensão é paralela à dela, a dela é paralela à nossa, como duas retas, não existe a principal.
– Mas se Deus só criou o melhor dos mundos, como assim apareceu uma versão sua de outro mundo? Ainda por cima do melhor?
– É, Rosely. – continuou Paulo. – Como você explica isso? Todos são igualmente possíveis.
– Vamos pedir mais uma?

Pediram.

– Ela falou comigo. Minha outra eu. Explicou que, lá, eu sou cientista. A principal cientista do mundo, a melhor em cálculo, e que eu ajudei a desenvolver uma máquina do tempo. Os cientistas queriam observar a criação do universo e voltaram até o Big Bang. No caso, eu, mas em outra dimensão.
– E daí, o que isso tem a ver com as dimensões paralelas e ela aparecer no seu espelho?
– E com o Breno da filosofia?
– Tem a ver que deu merda. Eles acharam que poderiam chegar no sétimo dia, com Deus descansando, e assistir ao começo sem atrapalhar. Mas a simples presença deles desarranjou toda a ordem das coisas, e o melhor dos mundos ficou fissurado, à beira de um colapso. Sabe, Leibniz dizia que o universo todo é composto por microcoisinhas, tipo átomos, e que essas coisinhas tão todas arranjadas dando o equilíbrio e a perfeição que Deus criou.
– Tipo os Bósons de Higgs?
– Acho que sim.
– Daí ela resolveu aparecer no teu espelho para choramingar?
– É mais complicado que isso. Vocês já leram Bradbury?

Porra, não era para ler que eles matavam aulas na faculdade.

– Mais ainda?
– Sim, Ivete. As falhas no melhor dos mundos não só desorganizaram todo o universo deles como fizeram com que parcelas de realidade migrassem para os mundos possíveis, como o nosso.
– Que viagem. Mas o mundo já não estava criado, os possíveis não tinham sido descartados por Deus na criação?
– Sim, mas quando eles chegaram, no sétimo dia, Deus estava dormindo, e os distúrbios que eles causaram fizeram com que Deus começasse a ter sonhos, a reimaginar os possíveis.
– Então, segundo ela, somos um sonho de Deus?
– Eu diria um pesadelo, mas, em todo caso, sim. É isso.

Paulo e Ivete se olharam sem se beijar. Ela vestiu as mangas da malha que estava pendurada na cadeira, e ele limpou os óculos.

– E você acreditou nessa história toda?
– Claro. Num mundo melhor, eu sou cientista, a melhor do mundo e não professora de ensino médio em São Paulo. E considerando tudo mais o que não tem dado certo na minha vida, este não é nem de longe o melhor dos mundos.
– Que horror, Rô.
– É. Pensa bem, e se o Breno estiver errado?
– Paulo, isso não tem nada ver com o Breno, tem a ver com ciência, Leibniz, Deus, salvar o universo.
– Salvar o universo?

Mais um gole de cerveja.

– Sim, é aí que eu queria chegar. A eu de lá criou esse esquema de se comunicar com outros mundos para convocar uma reunião de todas as Roselys possíveis. Com a desordem no melhor dos mundos, com os defeitos, as falhas, essas coisas, ela não consegue refazer os cálculos para arrumar tudo lá no começo. A inteligência dela se espalhou entre as dimensões. Ela se tornou menos do que perfeita. Sem mim, sem as outras Roselys, não vai ser...
– As outras? Vocês as viu?
– Ainda não. Mas então, com todas juntas, ela acredita que poderemos refazer o melhor dos mundos.
– Simples assim?
– Simples não deve ser. Só sei que, se não arrumarmos a ordem das coisas lá, tudo deixa de existir.
– Sem mais nem menos?
– Sei lá, Paulo. Foi o que ela falou.
– Que puta mentira, Rosely! Você tá inventando isso pra dizer que tá ficando com o Breno?

Paulo vinha suspendendo o juízo, mas neste ponto desistiu e chamou mais uma Brahma. Já Ivete não sabia se a amiga estava bêbada ou demente.

– Não sei se acredito...
– Bom, eu não consegui duvidar de uma versão melhor de mim mesma.

Ivete mexeu na bolsa.

– Olha, eu tenho um espelhinho aqui, será que podemos ver nossas versões alternativas também?
– Que espelhinho é esse?
– Ai, Paulo, é só de maquiagem, ganhei da Fê. Olha.

Seus reflexos eram normais.

– Deixem-me ver. Olhem, é ela.
– Olá. Lembre-se que precisamos ir hoje. Você sabe o que fazer.
– Sim, olá. Você pode dar um alô para o Paulo e para a Ivete, confirmar a história toda?
– Não há tempo para... Paulo e Ivete? – A Rosely de lá riu nervosamente. – Você sabe o que fazer. Nos vemos em pouco tempo. Até.
– Parecia uma videoconferência, né, amor? E Rosely, viu como seu cabelo fica bem melhor repicado?
– Você achou?
– Sim, sim. E acho também que entendi por que você acreditou nela.
– Vamos parar com essa porra toda! O que é isso? – interrompeu Paulo, em pânico. Quero saber por que ela riu de nós.
– Não sei. Ela não tinha me dito nada de vocês.
– Será que não somos perfeitos lá?
– Claro que somos, amor.
– Escuta, Rosely. E se você não ajudá-la? O que acontece?
– Todo o universo deixa de existir.
– Vai tudo acabar do nada? Sem mais nem menos?
– Acho que sim. Na verdade, pelo que entendi, tudo não vai nem começar a existir.
– Mas se você ajudá-la, só vai restaurar o melhor dos mundos e não o nosso, certo?
– Parece que sim. Não tenho muitas opções. Agora que expliquei tudo para vocês, parece que não há dilema algum.
- Mas como não contou tudo isso antes? Ficou aí falando no Dênis, como pode uma coisa dessas?
- Pois é.
– Puta merda vocês duas. Vamos pedir a conta.
– Vamos.
– Vamos, Ivete, vamos logo, temos o que fazer em casa, se isso tudo for verdade.
– Tô com um pouco de medo. Você não, Rosely?
– Acho que não. Vou mudar as coisas para melhor. O que pode dar errado?

Despediram-se.

No seu quarto, Rosely se deparou com o espelho da penteadeira, mas preferiu não atravessá-lo ainda, como havia instruído sua contraparte. Ainda havia algum tempo. Seu eu havia dado um prazo: meia-noite. Tomou um banho quente. “E se Breno estiver errado?”. Que piada. Um pesadelo de Deus, isso sim. Tirou o telefone sem fio do berço e com a outra mão procurou o número no celular. O melhor dos mundos possíveis. Hesitou mas ligou.

– Alô?
– Dênis? É a Rosely.
– Oi, Rosely. Tava pensado em você.
– Eu resolvi te ligar. Tá ocupado?
– Não. Eu queria te ligar, mas você acredita? Troquei de celular e perdi todos os contatos. Estava sem o teu número.
– É, às vezes parece que o universo conspira contra.
– Todo o universo?
– Não sei, tomei umas cervejas. Sei lá.
– Vamos nos ver? Eu passo aí.

Silêncio.

– Alô? Rosely?
– Oi, eu... Tudo bem, passa sim.
– Tá. Então um beijo, até daqui a pouco.

Quando o interfone tocou, Rosely estava terminando de corrigir as provas do 2º B. Dênis subiu com o cachecol nas mãos.

– Corrigindo provas, domingo à noite?
– Já acabei.
– Não preferiu tomar mais cerveja?
– Não é só porque há alternativas melhores que não temos deveres. E tenho que entregar amanhã de manhã para os meninos.
– Tudo bem. Mas vamos dar uma volta. Está frio mas está bom lá fora. E eu quero comer alguma coisa.
– Vamos. Que horas são?
– Quinze para a meia-noite. Que hora você tem que acordar para dar aula mesmo?
– Não se preocupe com isso.

Subiram a Augusta meio vazia e foram comer pizza. Conversaram sobre o tempo, sobre sabores de pizza, sobre cinema. Beijaram-se e desceram de volta ao apartamento dela abraçados, aquecendo-se.

– Fique à vontade. Preciso ir ao banheiro.

O espelho do armário de remédios estava coberto com um jornal, do jeito que Rosely havia deixado. Nenhum som vinha dele. Ela queria usá-lo, recompor minimamente a aparência depois de lavar o rosto e escovar os dentes, mas não ousou. A ausência do reflexo fazia o banheiro parecer menor; fazia com que ela se sentisse sozinha, o que ela menos queria no mundo. Saiu e encontrou Dênis bem à vontade e sorridente. Dormiram juntos.

Mas não muito. Lá pelas quatro da manhã, Rosely, inquieta, levantou-se sem acordá-lo. Saiu do quarto, não sem rapidamente olhar para a penteadeira, que tela tinha encoberto com um lençol. O que será que Dênis pensou disso? Seria preciso descobrir os espelhos. “E se Breno estiver errado?”. Teve vontade de ligar para Paulo e Ivete para contar que tinha Dênis em sua cama, não se importava com o horário nem com o fato de que provavelmente dormiam de conchinha, mas ficou com preguiça. Preferiu ir fazer um café, preparar umas aulas, quem sabe. Colocou bastante água para ferver, assim pôde aquecer as mãos sobre o bule com o vapor por alguns instantes. Queimou a ponta da língua ao experimentar o café e soube que precisaria de dois sachês de adoçante. “A eu de lá era bem mais enxuta. Ivete gostou do cabelo dela. Paulo tinha razão: Breno estava errado. Quanto será que ele tirou naquela disciplina com aquele trabalho? Eu nem devia ter ficado com ele na época. Mas na época.... Enfim. Seria bom se eu e o Dênis começássemos um lance mais sério”. Sorriu. Imersa em seus pensamentos, meteu a colher na xícara para misturar o adoçante, e o redemoinho que fez desmanchou seu reflexo no escuro do café. Ainda fumegava quando





Por Thiago F. * 19:31 * terça-feira, 29 de janeiro de 2013