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Spider-Manhattan



Para ler ouvindo Rhapsohy in blue, de George Gershwin.





Eu não tinha dito ainda para ninguém, com medo de parecer mentira. E este aqui me pareceu o lugar ideal para contar. Na minha viagem para a Europa, quando fiz a conexão em Regensgburg, indo de Frankfurt a Praga, encontrei Woody Allen. Estava sozinho na mesma cabine da minha poltrona no trem da České Dráhy.

Foi difícil resistir à vontade de iniciar uma conversa. Ele percebeu. Fechou o livro que estava lendo (não me lembro qual era).

"Escuta, rapaz. Você está bem?".

"Sim, é que o senhor é... você sabe...".

"Sim, eu sei ".

Como conversar sem parecer um fã? É bem difícil, considerando que eu sou um. Portanto menti. Disse-lhe que era jornalista. Aproveitei que tinha um caderno de viagem e pedi um entrevista, com o que ele concordou. Apresentei-me.

"Chicago?".

"É parecido...".

"Odeio Chicago".

"Tudo bem, mas pode me chamar assim, se preferir".

"Ok, e você pode me chamar de Mr. Allen".

Conversamos durante o trecho até Praga. Consegui fazê-lo baixar a guarda e mesmo falar sobre um filme dele. Não um antigo, mas um novo. Um que ele talvez faça.

"Homem-Aranha? Eu também sou fã dele".

"Me propuseram no fim dos anos 70. Recusei. Não faria um filme de ação, com pancadaria. Mas nos últimos anos, tenho pensado na ideia. Digitei algumas páginas. Acho que pode ficar muito bom. Se não der tudo errado, é claro. Sempre pode dar tudo errado".

"Sim. Mas você tem que fazer. Se der errado, e eu acho que não vai dar, você continua fazendo outros filmes".

"Eu imagino meu Homem-Aranha como meu grand finale. Quero que seja o último. Só que eu nunca sei quando vou morrer para poder programar o último filme. Por isso tenho sempre adiado. Não quero ter que fazer outro depois do Homem-Aranha. Seria minha dedicatória de amor definitiva a Manhattan, com um novo ponto de vista: o do topo dos prédios e arranha-céus".

"Terá ação, então? O Homem-Aranha balançando pela cidade?".

"Não, absolutamente. Talvez um pouco de uniforme, com ele chegando em casa cansado depois de uma ronda. Me interesso mais pelo homem que pela aranha. Quer dizer, isso soou mal, mas você me entendeu".

"Será centrado então nos relacionamentos com personagens de apoio? Nenhum supervilão?"

"Sim, estou trabalhando principalmente com os personagens de apoio. Tia May estará morta. A filha do Homem-Aranha com Mary Jane se chamará May Parker, também, em homenagem a ela. Eles estão separados, mas se veem ainda. Dão-se muito bem. Mary Jane casou-se com Harry Osborn".

"Woody... Mr. Allen... Harry morreu em 'Homem-Aranha 3'".

"Estou ignorando 'Homem-Aranha 3'. Ele está fora da cronologia. Aliás, estou ignorando todos os três filmes. Na minha história, eu, Peter Parker, o Homem-Aranha, comecei minha carreira de super-herói aos 15 anos em 1963 e envelheci normalmente ao longo das décadas".

"O senhor pretende interpretar Peter Parker?".

"Sim, naturalmente".

"É que ele não é judeu".

"Você deve saber, porque já foi dito muitas vezes, que qualquer habitante de uma cidade grande é um judeu. E eu sou perfeito para interpretá-lo. Sempre fiz o papel do panaca, fracote, perdedor, piadista, neurótico desajustado que, de alguma forma, teve sorte com grandes mulheres".

"É, faz sentido. Mas certamente as grandes mulheres do Homem-Aranha também envelheceram ao longo das décadas. Não veremos nenhuma atriz jovem envolvida com Peter Parker? Scarlett Johansson, por favor".

"Talvez ela seja a minha filha. Suponho que ela tenha vergonha do pai ser um herói antigo. Isso prejudicaria a carreira dela como atriz. Ela segue a vocação da mãe".

"Posso sugerir que Mary Jane seja interpretada por Molly Ringwald? Era quem eu imaginava na minha infância".

"Quem?".

"A Garota de Rosa-Shocking".

"Não acho que ela seja adequada. Não é velha suficiente para o papel. Keaton que me perdoe, mas pensei nela para Mary Jane. Além do mais, temos a química necessária".

"E por que a filha deles teria vergonha de o pai ser o Homem-Aranha?"

"O mundo terá mudado, não há exatamente um lugar para o Homem-Aranha, um combatente do crime fantasiado, como alguém de quem se orgulhar na família".

"Isso justifica a ausência das cenas de ação?"

"Sim, o conflito agora é interior".

"Esse é o slogan do 'Homem-Aranha 3'".

"É possível. Mas, como eu disse, estou desconsiderando esse filme. Na minha história, depois de 2001, muitos heróis se aposentaram dando oportunidades para novatos, que são mais reacionários. O ofício de super-herói terá perdido o charme. Peter Parker estará aposentado como fotógrafo do Clarim Diário e trabalhará como professor de química numa escola pública, mas continua atuando como Homem-Aranha porque se sente muito sozinho e precisa se ocupar".

"Então, a questão das mulheres será de alguma forma trabalhada no filme, ainda que para ressaltar a solidão de Peter".

"Imagino que para ele está difícil arrumar namoradas, sendo professor de química. Ele não revela publicamente sua identidade justamente por causa da filha, May. E as antigas namoradas, sim, ele perdeu o interesse por elas."

"Elas serão retratadas de alguma maneira?"

"A Gata Negra sim, muito envelhecida, rabugenta. Ela terá torcido o pé ao aterrissar num parapeito antigo que estava cedendo com infiltrações. Ela nunca teve superpoderes, você sabe, e agora andará de bengala. Nos bons tempos, ela só queria saber do Homem-Aranha, não de Peter Parker. Curiosamente, hoje que ela é só Felícia, ele não se interessa por ela".

"E Betty ou Glory?".

"Elas terão um motivo para não aparecer no filme ou para não servir como interesse romântico".

"Nem mesmo um flerte com Mary Jane, apesar do divórcio?"

"Sim, isso é inevitável. Estou pensando em refazer a cena que excluí de 'Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo', com a teia gigante e o casal."

"Lá era uma Mulher-Aranha, não?".

"Sim, você está certo. Uma viúva-negra, para ser exato. Evidentemente, precisarei adaptar o roteiro para essa cena funcionar. E, se não funcionar, jogo fora novamente".

"Seria o clímax do filme?"

"Não. Pelo potencial de não funcionar novamente, não posso contar com isso".

"E o senhor já tem em mente uma cena final?".

"Sim. Pretendo que seja na Ponte do Brooklyn, onde Gwen Stacy morreu. Vou construir essa possibilidade ao longo do filme. Com sua aposentadoria como fotógrafo, Peter ganha do jornal um clarinete de recordação".

"Não seria um clarim mais adequado?"

"Sem dúvida, mas eu não sei tocar um clarim. Enfim, com o divórcio, Peter passou a sentar no topo de prédios para tocar seu clarinete, de forma melancólica. Isso aumentou sua rejeição pelos nova-iorquinos. É uma dupla derrota que sofre do Clarim Diário: como Peter, ao ser aposentado e dispensado; como Homem-Aranha, porque as críticas do jornal consagraram uma péssima opinião pública. Ele agora só pode tocar na Ponte, porque lá ele não incomoda ninguém e é também um lugar que ele tem para pensar na vida".

"E ele estará sozinho no clímax?".

"Pretendo conduzir Harry até lá, de alguma forma. Quer dizer, preciso de um motivo para o Harry ir encontrar com ele lá. A forma de ele ir é voando num planador do pai, naturalmente".

"Haverá confronto? Harry herdará a vilania de Norman?".

"Muito pelo contrário. Eles são mais amigos do que nunca. A única coisa que Harry herdou do pai foram os lucros com o crime. Mas ele não é vilão ou antagonista. Ele não complementa Peter. Peter não o odeia por ter-se casado com Mary Jane. Eles conversam, Peter expõe suas angústias. Algo como o que eu fiz em 'Crimes e Pecados'".

"E as angústias de Peter dizem respeito às mulheres, à idade, a esse não tão admirável mundo novo em que ele se encontra?"

"É isso. Harry o encontra na ponte, com seu gabinete, e eles têm algum tipo de debate. Algo como: Pois é, Harry. Acho que está chegando a hora. Meu sentido de aranha não pára de tilintar. Não consigo mais dormir e passo o tempo todo como que fazendo um exame de consciência. Lidei a vida inteira com a ideia de que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Mas estes poderes que tenho – de que eles adiantaram para o mundo? Às vezes me pergunto se não salvei canalhas. Ou então, se eu não tivesse salvado as vidas que salvei, se outros não as teriam salvo. Não faltavam heróis nesta cidade. Ela podia está melhor. Ela merecia. Qual legado deixei? Olha esses novos heróis, eles não fazem nada de interessante. Nada. E ainda assim serei esquecido. Até minha filha tem vergonha de mim. A vida acabou. Para sempre. Terei acertado? Feito o suficiente? O que mais poderia ser feito? Parar? Continuar? Parece que qualquer decisão que eu tome agora será entre perder ou perder. Quem poderá me dar essas respostas? Ninguém. O único deus que eu conheço é o Thor e ele não responde meus telefonemas. A vida acabou e não há respostas. O engraçado é que eu passei a vida toda jogando xadrez contra a morte, pulando de casa em casa – ou de prédio em prédio, no meu caso – para escapar do seu xeque. Mas ela vai ganhar, cedo ou tarde. Nenhuma piada adiantará; não poderei mais enganá-la. A única vilã que eu não poderei vencer. No final, sou mesmo apenas um inseto velho, empoeirado, preso numa teia sem saída. Ser derrotado com tanta ironia – justamente eu?"

"O fim será assim? Solitário, pobre, sórdido, embrutecido e curto?"

"Como a vida. Mas talvez eu encaixe alguma frase mais otimista da parte de Harry. Mas, como eu disse, ele não é contraponto a Peter. Não decidi isso ainda. A última cena, todavia, eu já a tenho: Peter, do topo de um prédio, observa o pôr do sol. O ocaso é, afinal, o fio condutor da minha história sobre o Homem-Aranha".

"Como nas antigas revistas, em que ele chegava em casa pela manhã e, antes de entrar no seu apartamento pela clarabóia, observava o nascer do sol? Com a máscara projetada no céu?"

"Exato, mas o oposto. Não há mais um futuro brilhante e esperançoso para Peter. Não haverá continuação na próxima edição. Desta vez, é o fim mesmo".

"Mr. Allen... como posso dizer? O senhor não teme que, dessa forma, as pessoas continuem confundindo você com seus personagens?".

"Chicago, as pessoas fizeram isso a vida inteira. Elas nunca me entenderam. Suponho que jamais entenderão. Da minha parte, não me incomodo mais com isso. Só sinto que, se tenho uma boa história para contar, eu devo contá-la".

O trem finalmente chegou a Praga. Woody Allen me deixou o endereço do hotel em que ficaria, para que pudéssemos continuar a suposta entrevista. Após visitar alguns castelos, fui me reencontrar com ele, conforme combinamos, mas ele não estava no hotel que me dissera. Woody Allen mentiu para mim! Sobre o que mais ele teria mentido? Só o tempo irá dizer.


Por Thiago F. * 20:03 * quinta-feira, 27 de agosto de 2009