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Relaxa, cara

Para ler ouvindo I never came, de Queens of the Stone Age



"Relaxa, cara" é o caralho. Eu fico puto de ouvir isso. Puto. Por acaso parece que eu não to relaxado? Tô com cara de nervoso? Tudo bem que eu não relaxo nunca, só que eu não demonstro. Fico na minha. Aí vem o camarada e me manda relaxar. Como é que ele sabe? Filho de uma puta. Então é óbvio que eu saio do sério. Mas, também, o cara pediu. "Relaxa". Relaxa você, seu arrombado.

O relaxamento é uma característica inata presente na maior parte dos seres humanos - mais de 95%, eu suponho. Não em mim. Mas custa me respeitar? As pessoas não sabem o que eu tolero, dia após dia, minuto após minuto. Se soubessem, me dariam razão. Então por favor, tudo o que peço é: me deixem na minha.

Desde criança eu sou assim. Desde que eu nasci. Desde antes. Saí da barriga da minha mãe com oito meses. Tava um saco lá dentro. Se eu soubesse o que me aguardava aqui fora, teria ficado lá. Sossegado. Mas não. Tive que sair, como todo mundo. Daí vêm essas pessoas que, não contentes em ter me concebido, ficam de bibibi, tralálá, ticotico, nhénhénhé. O que eles achavam que eu era, um idiota?

Um dia me levaram pra fazer um exame qualquer no médico. Primeiro aquela demora infinita. Os brinquedos da sala de espera eram os mais sem graça: quebra-cabeças de quatro peças, pega palitos, essas coisas. Quando enfim o médico me chamou e me mandou sentar na beira do leito, o que ele me falou? Isso mesmo: relaxa a perna. Como assim, relaxa a perna? O que eu estou fazendo? Deixa ela solta. Ela não fica solta, seu idiota, ela está presa no meu corpo. Deixa pendurada. Claro que eu deixo pendurada, olha o meu tamanho, eu ainda não alcanço o chão daqui. Relaxa. Que relaxa o quê, você está me deixando nervoso com essa história. Quando o médico te manda relaxar, é porque você não está relaxado, e isso é tão preocupante que não dá mais pra relaxar depois. É tão difícil assim pra ele entender? O que eles aprendem na faculdade, além de ficar dando marteladinhas no joelho de crianças?

A adolescência não foi nem um pouco melhor. Não se pode razoavelmente esperar que um jovem relaxe. É evidente, ele é um poço fervilhante de hormônios e sensações e vontades e ansiedades. Principalmente ansiedades. Quando jovem, esperava sempre. Esperava a hora certa chegar. É claro que não chega nunca. E é claro que eu ficava cada vez mais ansioso. Ainda mais com mulheres. Então vem alguém, supostamente seu amigo, e diz o que pra você? Relaxa e goza. Não, espera aí, só pode ser sacanagem. Relaxa e goza? Mas se eu ainda nem gozei, como vou poder relaxar? Será que ninguém vê que está invertida a ordem dos fatores, será que só eu vejo isso, Cristo? Dai-me paciência, mas muita paciência.

Então estou eu lá naquele maldito avião. Nada é pior do que viajar de avião. Acordar cedo para pegar vôo promocional, pegar fila, fazer check-ins, tolerar apagões, veículos apertados, amendoim de café da manhã. As aeromoças, uma antipatia só. Poltrona reta, cinto de segurança. Desliguem os celulares. Meu celular fica desligado sempre. Só tem toque ruim. Passo vergonha e nervoso. É bem melhor deixar desligado. Não que liguem muito, mas vai saber. Pelo menos a operadora não me incomoda com promoções inúteis. E o piloto resolve pousar oito horas da manhã em ponto. Deve achar bonito colocar no diário dele. "Pouso: 08h". Só para poupar os dois dígitos dos minutos. O que ele não sabe é que, normalmente, eu acordo as oito da manhã em ponto. Aliás, eu e muita gente. E o que as pessoas fazem para acordar em ponto? Colocam o celular para despertar às oito. Resumidamente: assim que o avião foi tocar no solo, o celular ligou para fazer o despertador tocar. Só que celular funcionando em avião não é coisa boa. Espatifamos no chão e morremos desgraçadamente. Meus quinze minutos de fama na TV, e eu pegando fogo. É de foder.

E o pior veio depois. Outra característica inata presente na maioria dos seres humanos é o ateísmo. Em compensação, é muito fácil adquirir uma religião. Quase todo mundo pega isso. Não há anticorpos. Eu, por acaso, não adquiri. Aliás, eu tinha certeza que Deus não exisita porra nenhuma. Quando, de repente, acordo no Céu. Sim, o Céu cristão - me perdoem outras religiões, seus deuses continuam não existindo. Naturalmente, se você é ateu, ir para o Céu já é o próprio inferno. Não precisa de mais nada. Passar a eternidade naquela serenidade, tudo branco, anjinhos sem sexo, coros, harpas: não existe castigo maior. Um momento - existe sim.

Primeiro porque tem uma puta fila pra separar o joio do trigo. E não digo só os cento e poucos passageiros e tripulantes que morreram comigo e que ficaram ali me acusando por causa do celular, como se a culpa fosse minha agora. Não. Eram muito mais. Imaginem quantas pessoas morrem por dia, e só tem uma fila, já que só Deus perdoa. E ele perdoa, é incrível. E o detalhe: quando ele fez o homem à sua imagem e semelhança, ele estava de sacanagem. O cara é exatamente aquele gordo que fala alto na mesa ao lado no boteco e estraga a sua cerveja com os amigos. Sabe aquele gordo falando alto, contando vantagem, mentindo pra cacete, gargalhando, transbordando simpatia, que está na mesa ao lado da sua sempre que você vai ao bar? Pronto. É Deus. E no céu, ele ouve toda história de cada um que morre, dá risadas, conta causos e, finalmente, perdoa. Não sei porque se dá ao trabalho. Porque ele sempre perdoa. Um por um.

Eventualmente, chegou a minha vez. Ele me cumprimentou daquele jeitão insuportável e ainda disse "Conta aí qual é a sua". Ficou parado lá sorrindo que nem um idiota. "A minha o quê, seu arrombado?", pensei. "Fala alguma coisa". "Falar o quê, você vai me perdoar mesmo". Ficou sério. Tirou do bolso da camisa uns óculos de leitura, ajeitou a ponta no nariz e começou a ler alguma coisa num livro. "Ateu, né?". "Ex". E o filho da puta riu. Como eu odeio quando alguém ri de mim sem eu contar piada. Tão achando que eu sou palhaço? Mas o pior de tudo é Deus rir de você. Nada é mais deprimente e, conseqüentemente, irritante. Mas pelo visto ele estava rindo sinceramente. "Tá perdoado, pode entrar". Eu não agüentei. "Como assim, pode entrar? Eu que não vou passar o resto da minha vida aqui". "Vida, haha. Matheus, vem ver esse cara. O cara é bom". Puta, mas que Deus cretino que foi existir. Por que não Krishna, Júpiter, Tupã, qualquer outro? Por que justamente aquele? "Escuta aqui, não estou de piada. Me tira desse lugar agora".

Ele finalmente percebeu que eu estava realmente irritado. "Como assim, filho, você quer ir pro inferno?". "Pra mim isso aqui é o inferno já. Se você é Deus ou o Diabo a quatro, o fato é que já estou sofrendo eternamente desde que cheguei aqui". "Pois seja". E me mandou de volta para a Terra, pra viver eternamente. Viver eternamente! Dia após dia, minuto após minuto, desgraça após desgraça! Só de pensar, já fico nervoso. Será que ele não podia simplesmente ter me apagado? Ou será simplesmente que não dá pra ganhar de Deus? Ele te fode no inferno, na Terra e no Céu. Você não escapa. E eu que só queria viver em paz. Ou mesmo descansar em paz. Dormir para sempre, sei lá. Quem sabe eu relaxaria.



Por Thiago F. * 07:18 * sábado, 8 de novembro de 2008