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Para ler ouvindo Hollywood Theme Song, do Megapuss.



(Já sei como começar.)

CENA 1 - Externa

É noite. Lua cheia.

(Cliché de terror. A primeira cena tem que dar o tom do filme.)


CENA 1 - Externa

É noite. Lua cheia. Cortes sucessivos de várias tomadas da cidade. Por fim, vemos a fachada de um consultório odontológico com um painel backlight. Nele se lê: Consultório Odontológico 24h. Dr. Diógenes Almeida Menezes. Dr. Valério Peres Menezes. Dra. Margareth Almeida Peres. Alguns números.

CENA 2 - Interna - Sala de espera do consultório

Corte para interior do consultório. Sala de espera com TV ligada. A dentista está sozinha, entediada. Romântica, solteira. Assiste TV.

Dentista (pensamento em off):
Ninguém aparece. Muito menos um príncipe encantado. Príncipes encantados não têm dores de dente durante a noite. Já que ninguém vai aparecer mesmo, vou pedir minha pizza favorita: alho.

(Pensamento em off? Jamais. Que ideia horrível. É preciso mostrar o que o personagem pensa. Não dizer. Não posso subestimar o espectador. Melhor cortar direto para a pizza. A pizza inteira remete à lua cheia. Isso funciona no cinema. Preciso pensar em mais signos circulares para as próximas cenas.)


CENA 2 - Interna - Sala de espera do consultório

Corte para a pizza inteira. Câmera zenital. Amarela, do queijo, com grandes pedaços de alho. A dentista se serve e come sozinha, entediada. Come vendo TV, assistindo a algum filme romântico. Cena de beijo na tela. Em preto e branco. Subitamente, o som do interfone sendo tocado.

Dentista (gritando):
Está aberta!

CENA 3 - Externa - Porta do consultório

Corte para a frente do consultório. Um homem de cabelos brancos, vestido à moda antiga (pesquisar visual adequado). Pálido, abatido, com medo. Não sabe se deve entrar ou não. Põe a mão na bochecha esquerda. Tem dor de dente. Toca novamente o interfone.

CENA 4 - Interna - Sala de espera do consultório

Corte de volta para o interior. A dentista se surpreende. Ela pára de comer e vai escovar os dentes. Não há pasta.

Dentista (pensamento em off):
Só aqui mesmo.

(Não! Ela não pode pensar! Tenho que mostrar. Mostrar, mostrar, mostrar.)


CENA 4 - Interna - Sala de espera do e lavabo do consultório

Corte de volta para o interior. A dentista se surpreende. Ela pára de comer e vai escovar os dentes. Não há pasta. O tubo de pasta de dente está no fim, vazio. Tomada da boca redonda do tubo vazio. A dentista procura em uma gaveta e não encontra nada. O interfone toca novamente e ela, com pressa, veste a máscara cirúrgica que estava pendurada no pescoço para disfarçar o hálito do alho.

(Tomara que essa cena não leve mais de alguns segundos na tela, em jump-cut.)


CENA 5 - Externa - Porta do consultório

Corte para a porta do consultório. Ela abre a porta para o senhor entrar.

Dentista:
Estava aberta.

CENA 6 - Interna - Sala de espera do consultório

Ele está incomodado. Na recepção há um crucifixo, que ele percebe.

Dentista:
Boa noite. O que o senhor tem?

Antes que ela termine a frase, o homem já saiu da sala de espera e foi para a de consulta.

CENA 7 - Interna - Sala de consulta

O senhor se senta na cadeira de atendimento antes mesmo de a dentista mandar.

Senhor:
Dor de dente. Muito forte. Há muitas noites.

Dentista:
Abra bem a boca.

Corte para a lâmpada redonda acoplada à cadeira de dentista sendo acesa. Corte para o homem, que cobre os olhos com as mãos e grita de dor. É sensível a luz.

Senhor:
Desligue isso, por favor. Minha vista...

Dentista:
Senhor, preciso deixá-la acesa para olhar o que se passa na sua boca. O senhor pode fechar os olhos se quiser. É só a boca que precisa ficar aberta

O senhor tateia em algum bolso e encontra óculos escuros. Coloca-os.

Senhor:
Prefiro ficar com os olhos abertos também.

Dentista:
Como queira.

("Como queira"? Será que alguém diz isso mesmo? Não seria "Como quiser"? Na dúvida, é melhor tentar outra coisa.)

Dentista:
O senhor é quem sabe.

Com a luz acesa, ela tenta jatear a boca do senhor com água para lavá-la. Ele fecha a boca e desvia do jato, que bate na cadeira.

Dentista:
O que foi agora?

Senhor:
O que é isso?

Dentista:
Água, ué.

Senhor:
Só água?

Dentista:
Como assim?

Senhor:
Água normal?

Dentista:
Claro.

Senhor:
OK. Vamos logo com isso.

(Ele não diz isso de forma antipática. Está realmente preocupado com a dor, mas parece o tempo todo preocupado com algo a mais. Avisar o ator para ser paranóico.)

A dentista rapidamente analisa o interior da boca do senhor e dá seu diagnóstico.

Dentista:
É cárie.

Senhor:
Cárie?

Dentista:
Sim.

Senhor:
Não é possível, não como doce há séculos.

Dentista:
E, pelo visto, também não escova os dentes há séculos, né?

O senhor faz cara de desagrado. Breve silêncio para a plateia rir da piada.

Dentista:
Vou ter que obturar.

Senhor:
Mas eu preciso dos meus dentes!

Dentista:
Não disse que vou arrancar os dentes. Só vou arrumar os dentes, vou passar um material para cobrir a área danificada. Um amálgama.

Senhor:
Amálgama?

(Acho que já foram dadas pistas suficientes: lua cheia, alho, crucifixo, medo de passar pela porta, medo de água a água ser benta, sensibilidade a luz, preocupação com os dentes. Se eu deixar mais explícito que isso, vou estar tratando o público como idiota. Até agora, só não viu quem não quis. É o momento da revelação.)

Enquanto a dentista prepara a operação, o senhor fica observando seu pescoço. É apetitoso. A jugular está saltada. Ele lambe os beiços. Senhor (pensamento em off): Poderia atacá-la agora, mas me doem os dentes... não me alimento de sangue jovem há tanto tempo.

(Droga, outra vez o pensamento em off.)

Enquanto a dentista prepara a operação, o senhor fica observando seu pescoço. É apetitoso. A jugular está saltada... ele lambe os beiços. Suas presas crescem.

(E se não houver verba para efeitos especiais? Faço uma sequência de cortes? Primeiro a boca dele, depois o pescoço dela, depois a boca com os dentes já grandes? Não... assim, vai ficar muito mal feito. Vai parecer Chaves. Acho que a visão do pescoço dela é suficiente para o público saber que ele é um vampiro.)

Enquanto a dentista prepara a operação, o senhor fica observando seu pescoço. É apetitoso. A jugular está saltada... ele lambe os beiços. Close nos olhos dele e no pescoço dela. Ele põe a mão na boca, seus dentes dóem.

("Dóem" ou "doem"? Ortografia nova é uma merda. Pelo menos o publico não vai ter que ler. "Doem" deve ser do verbo doar. Que eles doem.)

O vampiro cobre a boca com as mãos porque sente dor. Geme.

Vampiro:
É prata?

(Pesquisar se o amálgama contém prata. Aliás, pesquisar se vampiros são realmente vulneráveis a prata. Ou serão só os lobisomens? Em Blade eles são. E Blade é ruim. Hollywood. Acontece. Melhor cortar essa pergunta sobre a prata. O comentário dela sobre o amálgama também.)

Então o vampiro somente geme de dor e ela inicia a operação. Som de broca.

CENA 8 - Interna - Sala de espera do consultório

Corte para a recepção. A dentista conduz o vampiro até lá.

Dentista:
Cuide melhor dos seus dentes. Tem que escovar, passar o fio dental.

Inadvertidamente, ela retira a máscara enquanto fala. O hálito de alho o ataca. O vampiro grita de dor, suas presas crescem (resolver a questão de como fazer isso). Ele fica acuado, chorando, pedindo misericórdia.

Vampiro:
Piedade! Não lhe fiz mal!

A dentista, ao ver as presas, grita de medo, fica correndo ao redor da sala. Cena cômica: os dois têm medo, um do outro. Após um momento, ficam em silêncio, cada um em seu canto.

Vampiro:
Penha piedade, ponha de volta a máscara.

Dentista (gritando):
Mas o senhor é um monstro, vai me matar, me possuir.

Vampiro:
Não, moça. Por favor.

Dentista (chorando):
O senhor é um vampiro, um drácula...

Vampiro:
Sim! Mas sou velho e medroso... por favor, tenha piedade, não vou lhe fazer mal, sou-lhe grato... eternamente grato.

Mais um segundinho para a piada.

(Isto está ficando muito bom.)

Dentista:
Promete não me fazer nada?

Vampiro:
Sim.

Dentista:
Jura por Deus?

Dentista:
Isso eu não posso fazer... mas juro.

Outro segundo.

(Está genial esse roteiro. Muito engraçado mesmo. Já vejo os prêmios.)

A dentista toma coragem. Põe a máscara de volta e ajuda o vampiro a se levantar e a sair do consultório. Nem se dá conta de que ele não pagou pelo serviço. O relógio redondo, na parede, marca meia-noite. Som de badalo.

(E agora? Fim seco? Só se eu dirigir à moda francesa. Mas não... está bom demais. Eu preciso continuar. É preciso fazer uma trilogia. Uma trilogia com o vampiro? Vampiro no açougue? No estádio? Não... o personagem principal é a dentista, ela é o elo humano com o público. É com ela que as pessoas se identificam. A mocinha romântica, solitária, trabalhadora, sonhadora... quem sabe no próximo episódio eu coloque um lobisomem? Não, muito óbvio. Um alienígena? Já terei verba com o sucesso do primeiro. Alienígena... mula sem cabeça? Não, ela não tem dentes. Preciso pensar grande. Darth Vader? Hmm... Preciso pensar melhor. Sem dúvida, no último, o lobo mau vestido de vovozinha, louco pra comer a dentista. Então vem o príncipe salvá-la num cavalo branco, e ela pode ser feliz para sempre. E a última cena é o sol. Genial!)


Por Thiago F. * 10:40 * quarta-feira, 15 de abril de 2009